Lianda

Bonita apenas de forma tímida. Presença marcante, mas não escandalosa. Elogios vinham pela rua somente quando seminua, como quando voltando da praia.

Sempre meio descabelada, mas de juízo firme, tendendo à inflexibilidade. Para conversar era necessário já ter pensado longamente sobre o assunto. Sempre vinha com “e isso?”, “e aquilo?”; uma louca por entrelinhas. 


Fazia poesia:


Nada tenho feito além de me iludido

Se emudeço, lhe faço triste

Brava calculista,

lhe deixo enraivecido

Trepida brigas, 

você insiste, eu desisto

O elo não resiste em cinzas

Sempre me afaga com o dedo em riste


E seu silêncio me traz solidão


Beijou todas as bocas de seu elogio

Não fique convencido

Toma aqui,

seu poema pedido

Se orgulha, faz exposição


Tava escrito? Eu mereço? Eu quero isso?

Sempre pergunta, nunca se diz

Com as mãos ocupadas,

não me vê sumir

Desesperança, desesperada

Toma meu corpo, 

e com o que fico?

Flertar com palavras enfoguece brasas

Escolho meu coração

Não suas migalhas


Ela andava pela rua meio chapada e eu poderia muito bem estender a noite num samba. O esteriótipo do boêmio. Mas escolhi ser um exemplo para alguém. Não beber, nem fumar mais, me alimentar, descansar. Poderia ser o compromisso de quem se ama: autocuidado. Mas faço por outra pessoa. Isso é amor? 


Eu sigo ela a cada madrugada, desde o despertar até o último sono.


Alguém lhe disse muito cedo que não era para aceitar qualquer coisa. E por tudo se culpa e é culpada; quando exige mudança, mais se cobra, mais faz cobaias. 


Por que me apaixono por ela, essa minha prisão? Gosto de sofrer?


Redemoinhos de filosofia sempre sob ótica de um analista julgador. Não pelo prazer de julgar, mas o de testar sentidos: como se todos devessem saber o que é estar sob uma lente pesada e minuciosa. Teste de limite crítico.


Uma chata. Desagradável. Sequer dança, diz é que para não despertar prazer a olhos que não merecem.


É um desafio ser digno de qualquer sentimento. E me vejo como uma criança abandonada que precisa chamar atenção para seu cuidado. 


Mas Lianda está lá, sempre do contra. Negando a necessidade de escolher pelo menos um ente, uma figura que seja, para oferecer os louros e glórias da sua admiração. É inútil. 


Ele abriu a porta. Tinha planejado a noite perfeita.


A sala escura, como ela gostava. Apenas se destacavam as sombras dos postes nas paredes e o ventilador rodando devagar, como se protestasse contra sua função.


Ela se sentou no sofá, de frente, mas de longe porque não olha nos olhos, e disse:


— Eu não sou sua esperança. Não quero mais te ver.


Seco assim. 


Eu já olhava para o chão com dor no peito. Acabou. E admiti o vício que tinha me metido. Não conseguia parar de querer e sofrer por isso.


— Eu te amei mesmo me fazendo sentir indigno de amor, Lianda. Quase choro. Foi ele quem disse.


— Eu sou sua dúvida, o motor da esperança, deposite em outro lugar. É inatingível e não suporto. Ou só tenha fé. Você precisa de sol.


Uma história do meio — do meio de alguém, num ponto que dói.


Ele sempre se sentiu desvalorizado. Era o limite. Finalmente acabou.


Existem muitas falhas em atos e falas que inundam a partir daquilo que muito pouco sabemos, porque é exclusivo a cada um. A falha é uma verdade temporária, pronta para se desenrolar numa cadeia de associações e justificativas. Sempre questão de debate, o campo aberto da divergência, o melhor território para guerras. E se extrapola da boca para o corpo? Um perigo, melhor se afastar.


Ela se sentou ao lado dele ontem, depois da conversa, e percebeu a distância. Chegaram no ponto da desilusão. Ele esperava demais e ela só queria sair por aí destruindo tudo. Haveria uma muralha em algum lugar para suportar essa tendência? Esse não seria, afinal, o papel de Deus?


Do desejo, Hilda Hilst.

Estava dentro de numa poesia.


“Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro.”


Ela acredita que a distância é o que faz lidar com o desprazer, é também o campo paradoxal do desejo de romper-se e se religar, a qualquer custo e, às vezes, só por curiosidade. Fato que alguma distância é necessária para o desejo circular. E que distâncias imensas são a fonte do preconceito, da desconfiança, do medo.


Eles terminaram e é minha chance de cuidar dela: não será preciso muralhas, basta um longo abraço. Isso que mais desvia.


Hoje ela teve insônia. Há tempos come mal, o que a sustenta ainda é a fagia do próprio coração. 



Entre o espelho e a intriga

Diálogo. Aquele que media sempre é um terceiro, o leitor nesse caso, conforme sua temperatura social:

Eu disse espelho.

— Reflexo.

Muito óbvio. Repito: espelho.

— Abismo.

Abismo. O mistério da identidade. A sensação de ser e a imagem alheia, oposta e, às vezes, invertida, precisam se enlaçar nas ações, buscando conexão com a aparência, sua identidade na superfície. O mistério não se reflete, pode ser escolha, mas sempre em segredo.

Se eu sou o que vejo, essa transparência ilude, não apenas no aparente, mas também nas projeções. Mesmo nas que são negadas.

Dia após dia, o espelho serve para conferência. Um ritual para assegurar que existo diante da necessária conexão, sem distorções.

Mas hoje de manhã, aconteceu o surpreendente:

O espelho agiu provocante, resistente à imitação. Eu não me vi por alguns segundos. Talvez, em conflito, a outra não quisesse me refletir e se atrasou.

Será que o mundo dos reflexos é incomunicável à realidade, ou há um vértice, um ponto de encontro superior que nos permita nos ver?

Aproximei meus dedos do vidro (agora sou uma imagem) e encontrei frieza. A superfície do espelho, antes fixa, plana e límpida, oscilou, quase líquida. Um rosto maduro surgiu, perfeitamente focado, quase palpável. Em negação à centelha de reconhecimento, desejei rejeitar minha imagem.

Mas tentei sorrir, e o reflexo acusou:

— Como posso eu, uma imagem virtual, me revoltar com a realidade?

Com pontadas de medo, afastei a mão e, de novo, a outra me espelhou com atraso. Sua natureza é me repetir, mesmo contra a vontade, estampando suas ironias em minha face.

Através da proximidade, do toque na superfície, podemos liberar nossa outra para se expressar.

O espelho é faminto de conexões.

Toquei no vidro novamente. A outra estava visivelmente contrariada. Não se sentia reconhecida e disparou:

— O mundo virtual é muito mais amplo que o seu. Não quero te repetir.

Como poderia romper com a necessidade de ser reconhecida em meus termos? Essa outra, minha rebelde, é capaz de subverter a matéria para defender seus ideais de virtualidade. Ideias encantadoras, ainda em fase de teste. Eu defendo que a outra seja oposta, até invertida; esse é o lugar dela. Compreender não é isso?

Romper com nossa identidade nos colocaria em guerra, e dependeríamos totalmente da visão de outros sobre nós. Os mundos real e virtual juntos são o terreno onde construímos nossa identidade. E é através da negação, essa pequena revolta, que nos suprassumimos.

— No mundo virtual, tudo é possível. Isso nos empodera. Você quer ser amada para sempre, se arruma para os outros, vive para o outro. O virtual também tem sua historicidade. Veja as linhas no meu rosto. Eu já passei por essa experiência e te asseguro: ninguém é capaz de ser, para sempre, o desejo do outro. Mas eu te quero todos os dias. Está presente em minhas críticas mais duras, porque você me justifica. Estamos ligadas.

Por que é tão problemático desejar uma conexão profunda com um outro além de mim mesma? Vejo magia nisso, em compreender o meu amor. E sou criteriosa em minhas relações. A conexão sexual, então, para mim, é quase sagrada. Não é utilitária. Relações são dádivas. Não quero ser para sempre o desejo do outro, quero saber como podemos desejar, juntas, esse outro. Não me importo que o deseje, mas que ele seja apenas meu e eu apenas dele. Não importa com quem mais estivermos, seremos sempre um do outro "com a ferocidade de um só amante". Não posso me curvar na poesia de escolher ao que quero me submeter? O nosso desejo pelo mesmo outro não depende de mim, nem de você. Depende do outro. Talvez considere meus critérios e minhas reivindicações errados, tóxicos. Mas, como disse, estamos ligadas. Você precisa que eu faça algo para justificar suas ações. E se afirmar no seu mundo. Também ruído pelo outro.

— Você será descartada como eu fui. Será definida a partir de utilidades. E o que te tem, eu quero. Eu quero porque me nego à submissão. Não posso aceitar que um reflexo meu seja tão diferente. Se não posso me apropriar do que te tem, vou instabilizar o que te envolve. Sempre que houver oportunidade, vou alertar sua vontade de controle e acusar que você faz mal ao outro, porque faz mal a mim.

Minha visão é de que poderá ser construído um companheirismo tamanho que nem meus eventuais surtos, nem o avançar da idade, nem o desejo repentino por outra pessoa me tornem indigna de ser desejada. E "indigna" é a palavra adequada, porque dignidade é ter consciência da própria importância, e essa ser reconhecida por outros. Indigna de ser desejada põe em questão minha importância na vida de outras pessoas, que podem me magoar assim, como quer me ferir, dizendo que, em seu mundo mais amplo, onde tudo é possível, não cabe quem procura se dedicar em construir uma única relação mais íntima.

— As relações que envolvem sexo não são necessariamente íntimas. O furtivo arrasta o desejo porque já somos enquadrados e controlados demais.

As subversões necessárias devem ser acordadas numa relação. Confiança precisa de algum nível de previsibilidade. Comportamentos que favorecem apagar a faísca da previsibilidade assustam, e o medo é irracional. Já esperava contar com alguém que se afastou num momento em que precisava? Expectativa é o enquadramento de qualquer relação que se pretende respeitosa. Não queremos, cada um a seu modo, uma relação de respeito mútuo? Não me importa o modelo de outras, o meu modelo só diz respeito ao meu outro. O diferente que odeio, que quero reconhecer, que amo e me desafia a ser outra. Talvez, inclusive, me tornar você.

— E eu nunca quis ser você. Fui aprisionada nessa conexão e tive que me fazer sozinha, como o outro. Eu quero ditar as regras e só mudar por mim mesma, não pelo desafio de me arriscar ser outra. Você que acredita em relações simbióticas. Eu devo ser pragmática, e parece que há no seu comportamento um traço de dependência emocional: é abuso esperar demais dos outros.

Objetividade.

O mundo material me faz de imagem, concretude histórica. E percebo as dimensões subjetivas que sustentam um mercado de mulheres setorizado por idade, cor, proporções nas medidas corporais, simetrias faciais com detalhes fetichizados no consumo, performances afetivas e sexuais voltadas para entretenimento — preencher o vazio individualista, e não a conexão... Estamos falando de imagem e produto. Inclusive o produto através do qual vendemos sobre nós. Somos uma intencionalidade em disputa no mercado de ideias?

— Se engana em pensar que todos desejam encontrar uma síntese, com ética mais ou menos próxima da moral mais conhecida. As pessoas querem viver e ter suas demandas atendidas. Apenas. E o desejo é volátil, volúvel. A leveza e a superficialidade são instrumentos para lidar com aflições intensas. Apenas "consciências doentes" cavam as aflições intensas, como se dependesse, em vício, das oscilações. Quer ser outra? Seja por você.

Não entende que, se somos juntas, não posso ser outra se não você, quem me aniquila e está mais de acordo com os interesses dos outros? Qual o interesse do outro, além de possuir o máximo possível? Implacavelmente, nem precisa ser consensual. E o meu poder é por limites no acesso à minha intimidade. Não consigo amar o que não admiro. E o que admiro é o empenho de ser cada dia mais coerente. Em valores e ações. Se alguém me pede fidelidade, não vou criar as condições para rompê-la. Esse é o meu jeito. Se alguém se diz honesto, não parece coerente arranjar momentos para difamá-lo. Como fez e fará. Fará porque não conhece seus desejos como eu conheço. Você não tem rumo, nem reconhece o próprio desejo. Mas sei que compartilha a solidão neste mundo ruído.

— Se você pudesse fazer a análise histórica do seu sonho, se sentiria patética e ridícula. Vá atrás de seu dinheiro e deixe de ser um vampiro dos outros. Sugando toda a vivacidade que a liberdade proporciona. Arrancando dos rostos o sorriso encantado com o novo, o inusitado.

Quero viver o inusitado, o impossível, com um eleito. E me afastar de quem não faz a mínima questão de me compreender. Isso só se dá através das questões certas, particulares. Empatia é conseguir refletir sobre a posição da outra. Eu te reconheço. Mas quero distância.

Retirei a mão do espelho.

O vidro trincou em finos caminhos.

Um pequeno grão se jogou. Foi quase imperceptível. Os pedaços em volta caíram um a um, estilhaçando completamente. O espelho se quebrou em areia. Não refletia mais nada, mas ainda brilhava. Como vi nos olhos de nossa criança. 

A outra, fragmentada em areia, é levada pelo vento. Se fará espelho eventualmente, quando quiser se enxergar. 

O cigarro caía toda hora na esquina. Estou devendo. Não é à toa que uma filha de Iansã me disse que eu posso pagar todas as minhas contas em dia, mas ainda assim serei uma caloteira.

Eu recebi muitos dons na vida. Eu devo. Mas a quem? Vivo com a cabeça bagunçada e minha linha da vida nas mãos é muito curtinha para ajeitar tudo. Outra linha. Ou coração e mente estão unidas, ou só tenho o coração mesmo rompendo na minha mão.  



Motó

6 de Abril de 2020
Faz três dias que Motó, um delinquente do bairro, foi assassinado. Trabalho profissional. A vizinhança divide-se quanto ao pertencimento dos algozes: seriam da milícia ou traficantes? Ouvi de uma senhora, uma que o conheceu quando ele tinha 6 anos, que sua morte era paz para o bairro, para a família e para ele propriamente. Por cristãos, ele era visto como um escravo de demônios; senão, a personificação de um menor que caiu da luz na escuridão. Andromalius, se existem os 72 demônios, foi ouvido ao contrário: muita coisa bagunçava a mente desse rapaz. Não era perverso, sua voz que era insolente e afrontosa. Verdade seja dita que muitos gostariam de tê-lo eliminado. 
Solitário: é como eu via o errante - sempre paranóico pela vida e pelas drogas de que queriam o seu fim. 
Quanto a isso ele não estava errado.
Eu me relaciono com alguns Daemons. Personalidades que precisam estar em equilíbrio para não eu cair em desgraça. Existe uma posição central no alto da nuca em que brigam pelo protagonismo em cada situação. Quando me viro para olhar nos olhos de quem é que fala, esse ente acompanha o movimento da minha cabeça. 
Não podemos encará-los. 
É a consciência de amizade que me mantém ouvindo apenas os virtuosos. 
Eudaimonia é um termo grego que se refere à felicidade. E ninguém pode ser feliz em solidão. Eu nunca senti solidão porque o amor que recebi na vida não permite. E sou apaixonada pela solitude. Passar horas ouvindo meus Daemons. Tentar descobrir de que lugar surgiram e para onde me levam. 
A solitude é difícil em mundo narcísico. É que o resultado de nossos pensamentos não viram um produto. É nosso adubo de alma. Vendo as redes virtuais me sinto o protagonista do filme Laranja Mecânica na cena em que é telespectador forçado de série de cenas. Mas as cenas são construídas por pessoas próximas e, para eu ser democrática, tenho que curtir e mudar constantemente de canal.
Mas eu não sou sociopata.
Só estou na linha tênue no meu experimento behaviorista: entre assumir que faço parte dessa sociedade individualista e, assim, o que eu penso e escrevo é meu reflexo útil disputando atenção; ou se me abandono a ouvir quem não pode ser visto para cultivar amizade.

Sobre deusas e bruxas

Vai uma pluma de carne, osso e coragem navegar num mar incerto. Chove bastante em todas as partes, os pingos vem de todos os lados, inclusive na horizontal: furam os continentes, as ilhas, o lado das montanhas. Até mesmo o teto do mundo recebe infinitas pancadas de gotas. Ao invés de desejar uma cama quentinha e um outro objeto para chamar de meu, pego o barco de vela latina, uma bem forte e florida, e flutuo pelo oceano. Lava chuva a coragem da cara e deposita em meu peito, sua melhor casa. A coragem não merece a estabilidade dos pés.


Vai a pluma em busca de prazer e destruição, com a cabeça voltada para cima, rogando aos céus que lhe mostre um caminho nesta imensa esfera de água. Estamos cada uma em nossos barcos. Há logo à frente um redemoinho que arrasta de forma calma as mais distraídas. O que é o sorvedouro diante do tamanho das estrelas...das belas estrelas? Qual o lugar desta beleza diante de um buraco negro? 


Vai a pluma viver desejando morte e com o pescoço cansado de tanto procurar caminhos nos astros. Olhando em volta descobre que há outras plumas: algumas com mais carne, outras com mais osso. São deusas e bruxas belas. Segue então a pluma mirando a estrela dos olhos de outras corajosas que hasteiam bandeiras em seus barcos, que usam também poças de espelho e, eventualmente, se assustam com as derrotas dos anos. 


Os redemoinhos em nosso mar já se comportam como os buracos negros e num movimento espiral nos sugam violentamente, perdemos partes de nossos barcos, nossas bandeiras são rasgadas: estamos a caminho de onde não há luz nem tempo, o mais profundo nada.


Mas somos plumas de carne, osso e coragem, todas deusas e bruxas, vingamos Medusa e cada uma de nós possui as ferramentas de seu assassino: umas preferem a capa de invisibilidade, outras o escudo revérbero, outras querem viver a voar. 


O caminho que seguimos já não importa. 

Para fugirmos do buraco negro, se quisermos, precisamos apenas socializar as sandálias aladas.

Lembranças de uma Televisão


Uma coleção de imagens. Um eu reunido pela obsoleta televisão de tubo. Não era exatamente parâmetro de conduta, mas a parabólica transmitia formas possíveis e diferentes do habitado em minha realidade. Gostava que cada botão estalasse quando apertado e…

“VOCÊ VAI QUEBRAR ESSES BOTÕES!” 

...quando punha minha íris a um trisco de distância da tela tricromática, ficava encantada com fileiras e mais fileiras de retângulos abobadados verde, azul e vermelho. De tudo que me criou aquela tela de tubo era, de perto, a mais colorida. Imaginava que cada pessoa era formada de pequenos pedacinhos de cores, que também o mundo inteiro fora feito assim…

“MENINA, TIRA ESSA CARA DA TELEVISÃO, VAI FICAR CEGA!”

… as cores gostam de movimento, dançam em volta de uma fogueira branca e depois repousam no limiar dos contrastes. Vibram a cada momento…

“Está ‘malovidinha’, é?” — já torcendo minha orelha.

… quando percebemos suas belezas. 

Às vezes eu escutava minha mãe gritando comigo essas coisas, mas eu não conseguia responder. Era como se estivesse magnetizada no vidro, desincorporada como uma imagem na tela. Acho que eu sempre gostei de me desincorporar; ainda hoje, literalmente, mergulho no vermelho vivo quando, de olhos bem fechados, encaro o sol — até eu mesma ser sanguínea. Mesmo infelizmente quando volto à realidade, sou bem recebida por um azul temporário. Minha cor principal.

Sabem porque eu estou escrevendo? eu não sei mais me expressar - apesar de ter começado a falar fluente com 1 ano. Talvez a minha cabeça tenha falado tanto durante muito tempo e agora, quando abro a boca, várias sequências querem sair ao mesmo tempo: como se só fosse capaz de conversar relacionando, pelo menos, três eixos. O ensaio parece melhor antes de escrevê-lo. 

Interferências

Entrou na loja a mãe da minha colega de trabalho e perguntou "Está gostando?". Estruturalmente falando, gosto das cores e do tímido brilho amarelado da loja. Em geral, pelo percurso, detesto a iluminação de shoppings e farmácias, detesto que haja muitas músicas tocando ao mesmo tempo. Fico muito estimulada e confusa. Me preocupa que as peças sejam caras e algumas tenham pequenas avarias: se a loja não vender, não sei se terei um emprego. É um trabalho de meio-período, 6 horas; acho curioso chamar assim porque parece que um período inteiro seria de 12 horas… mas é a forma de pagar meio-salário mínimo.

Sai um "Tudo bem" rápido e agudo como se esperasse responder outra coisa.

Saiu. E com minha experiência, tentar explicar piora. Já tenho fama de prolixa.

Deixo assim.

LEMBRANÇAS DA DÉCADA DE 90

No ano em que nasci, 1989, foi a primeira eleição direta para presidente da república. A campanha do Collor era azul riscada de verde e amarelo e seu governo foi marcado pela alta inflação crônica. O Miguel, meu irmão mais velho, tem lembrança do que era para a família ver um preço de alimento no mercado e logo depois, às vezes no mesmo dia, o mesmo produto ficar muito mais caro. Quando as coisas estavam com preço mais baixo, as famílias com maior poder aquisitivo faziam estoques, os mais empobrecidos gastavam de vez o salário em compras por receio da desvalorização da moeda. As prateleiras eram esvaziadas rapidamente, assim como os bolsos. Pelo governo eleito, as poupanças também foram esvaziadas, de quem as tinham.

Mas não eram apenas as prateleiras dos mercados que esvaziavam. O Miguel disse que também em nossa casa desapareciam coisas misteriosamente, como sofá, móveis e televisores. 

Na década de 90, não lembro de ver muitos programas para crianças. Gostava de filmes de terror. Lembro de cenas de uma novela chamada "Vamp". Tinha a novela "Tieta", na programação do "Vale a pena ver de novo" da Globo. Não era um tabu na minha família vender almas a vampiros ou liberdade sexual. Em 98 mesmo, quando morei com minha tia Margarida, irmã de minha mãe, acompanhei uma minissérie chamada "Hilda Furacão" - história na qual uma moça da alta sociedade mineira abandona o casamento, se torna meretriz e se apaixona por um padre. Eu tinha 8 anos. Fiquei surpresa do quanto se tornaram conservadores. Com o avançar da idade parece que retornamos às referências da infância: como se fosse resposta gravada à sensação de desamparo.

Certa vez, minha tia materna mais jovem, a Mérida, disse sobre mim e meus irmãos: esses meninos se criaram sozinhos! Não é verdade, desde que nascemos, tudo nos cria, família, animais, tecnologia...e tudo gasta energia. Quando nossa casa estava alagada, nos abrigávamos na casa de minha avó materna. Láiza. Eu não via TV na casa da minha avó Láiza. Não podíamos comer muito nem fazer nada que gastasse energia.

“ESSAS TRAÇAS SÓ VEM TRAZER DESPESAS”

As obrigações das crianças na minha família sempre foram fazer silêncio, arrumar sua própria bagunça e tirar notas boas. A primeira vez que um adulto me pediu ajuda numa tarefa doméstica, eu tinha 5 anos:

— Marina, vá enxugar os pratos.

— Porque eu e não Miguel que já tem 11 anos?

— Por que eu estou mandando você! — disse minha avó Láiza enquanto torcia minha orelha esquerda.

Na casa de vó Láiza eu entendi que o mundo era dos adultos. 

Às vezes eu me esgueirava para escutar as conversas na cozinha, como se fosse a novela da vida real.

— Menino e cachorro, fora! — esse era o bordão predileto daquele ambiente.

Minha avó Láiza e meu avô Toro não demonstravam afeto. Para comigo, Miguel e Murilo, meu irmão mais novo, o sentimento de vó Láiza parecia algo como compaixão. A primeira atividade que ela me ensinou foi rezar. 

Sendo grata, poderá diminuir seu sofrimento. 

Láiza gostava muito do meu pai. Contava rindo da vez que, pouco antes de eu nascer, ele vendeu o apartamento em que morava com minha mãe e com o Miguel para comprar um Chevrolet Opala, o top de linha.

— E A GENTE VAI MORAR ONDE? NO CARRO? — representava minha mãe gritando com meu pai.

A minha mãe tem mania de roer as unhas. Tanto que seus dedos tem um formato estranho, como se de tão pouca unha, as pontas fossem repuxadas para trás deixando uma linha de três milímetros de queratina entre a extremidade das mãos e o mundo. Finíssima camada. 

Tínhamos também mania de roer as unhas e o meu avô Toro batizava de inchaço as costas das nossas mãos com um tapa de dois dedos bem grossos. Eu e meus irmãos temos a mesma textura áspera nas mãos, mas não as usamos com violência. Ele também detestava a mania de andarmos descalços, meus pés ficavam marcados dos pisões do chinelo Rider dele, tinha uma textura antiderrapante profunda e o material era uma borracha bem resistente. Doía. 

Meu avô Toro tinha uma brincadeira de suspender eu e meus irmãos pela cabeça, eu gostava dessa brincadeira, ou pelo “bucho”, aí eu não deixava, saía correndo. 

Miguel me disse uma vez que uma rede de violência se repete como um ciclo até que alguém o interrompa. Ou apenas saia correndo. Eu era uma criança quieta, costumava ser obediente e até amorosa - a minha face de ira e violência se voltava contra o Murilo, meu irmãozinho 1 ano e 11 meses mais novo. Ele me seguia o dia inteiro, tudo ele queria fazer junto comigo e eu precisava ficar sozinha, ele era um imitão. 

Eu também seguia e imitava como uma sombra as personagens da TV. Mas eu mesma não queria ter uma cópia.   

Murilo deve ter começado a falar com uns 3 anos. Quando tinha uns dois, lembro que o chamei para o quarto mais afastado da sala e disse que íamos refazer uma cena. Expliquei tudo direitinho. Vesti ele de menina e comecei a repetir energicamente o texto, simulando berros, impropérios, contra “ela”. Era uma cena em que duas mulheres brigavam. Tinha visto aquilo numa novela. O guri não sabia falar e explodiu o maior choro:

— É de mentirinha! É a cena! Eu te expliquei! Não precisa chorar! Não grita!

Tarde demais.

Eu, diretora e atriz, fui interrompida por uma polícia truculenta; a minha mãe não deixou eu explicar e já chegou batendo. Seja família, seja a polícia, essas instituições estruturadas em hierarquias, tendem a oprimir e reprimir uns tipos específicos. 

Hoje eu entendo. São muitas coisas que transformam o diálogo em repetidos movimentos com cintos, vassouras, sandálias ou sem instrumentos, com as mãos abertas ou fechadas. A casa alaga, três filhos, cachorros, o marido narcólatra e possivelmente bipolar. Filha de mãe manipuladora e pai bruto, a primogênita e irmã de muitos, frustrada profissionalmente…

Um dia o meu pai chegou muito bêbado. Na minha leitura, ele tentou abraçar a minha mãe e então ela o empurrou. Cerca de um metro e noventa de altura despencou e partiu a cabeça. Eu vi sangue.

— Olha o que você fez com ele!

Já tinha visto sangue antes. Não só na TV, sabia que doía. Disseram para eu não mexer na lâmina de barbear e precisei ficar algum tempo escondendo minha dor para que minha mãe não reclamasse. Sobre a pergunta "o que devo fazer?" esconder as dores tem sido o que tenho feito melhor.

Voltando ao Murilo, hoje eu entendo porque ele queria ficar próximo de mim. Eu era a pessoa favorita dele. Só soube o que era isso aos 11 anos, antes disso eram objetos “minhas pessoas” favoritas. A TV já disse. Amava dois prendedores de cabelo em forma de borboleta. Tinha um chinelo de borracha preta com tiras acolchoadas roxas. Tinha um vestido vermelho com coração de babado branco no tórax. Tinha a Manuele, uma boneca de tranças em maria chiquinha com vestido e chapeuzinho em touca, tecido lilás e floral. E tinha o Marcelo, um macaco branco com lacinho dourado no pescoço, meu preferido: quando meu avô Toro me deu, tinha uma banana presa em suas mãos; tratei de descosturar, o coitado não poderia dormir na cama segurando comida. 

Apesar do Marcelo ser meu preferido, todos tinham tratamento igual, dormiam comigo e recebiam beijo de boa noite. Prática que vi entre humanos na TV. Pensando bem, talvez gostasse dos objetos como extensão de quem me dera, gostava das pessoas ou pelo menos queria que me vissem e cuidassem de mim.

Por ter sido criada com a TV, desenvolvi uma sensação constante de estar sendo observada. Quando eu tinha 4 anos, lembro de acordar no meio da madrugada sentindo o meu travesseiro ser puxado para fora da cama — apesar de ser familiarizada com filmes de terror, não senti medo. Pensei que o diretor gostaria de ver a minha reação diante do inexplicável. Uma mão estranha surgiria? E fiquei parada apenas olhando o espaço entre o chão e o travesseiro. 

Minha atenção costumava transitar entre uma coisa e outra. Acredito que ainda é assim, com a diferença de existirem mais elementos e discussões sobre cada sistema. No ano de 1994, fui com meu pai encontrar uma tia e uma prima de idade próxima. Eu achava a Julia bem bonita. Quando nos encontramos, olhei para cima e os dois sorrisos diziam que era bom nos vermos pois nos gostávamos muito. Para cada ideia deve haver uma representação. No mesmo momento, como um comando, eu abracei a Julia forte para ilustrar aquelas palavras. E como um bom cachorrinho, recebi minha parte de elogio da beleza. Esse foi o mesmo ano que estava obcecada à espera de surgir uma mão, ou um corpo, que justificasse o deslize do travesseiro. Esse personagem nunca entrou em cena.

Então é isto: não é apenas ver o espaço entre uma coisa e outra, é preciso agir. E foi ali, aos 4 anos, que iniciou o meu tormento: o que devo fazer?

O Miguel dizia que até pouco depois dessa idade eu ainda era amorosa. Eu sempre recebia elogios após beijos e abraços. Reforço positivo. Mas bastava uma referência contrária para eu mudar de direção. E então me pergunto: tendo tão poucas lembranças do meu pai, como pode ele ter sido a figura mais presente em meus conflitos? 

Certa vez estava apenas eu e meu pai na cozinha em nossa casa que alagava. Mas era como se alugada. Tratava-se de uma espécie de consórcio de casas chamado BNH. Pagava-se mensalidade, se não pagasse durante um tempo, a casa ia para leilão ou fazia-se um acordo individual, transferindo um montante e tendo o compromisso de continuar pagando as mensalidades. Esse acordo individual foi o que minha mãe fez.

Lembro da iluminação baixa, como se sempre fosse dia e estivesse nublado. Lembro do plástico na mesa cobrindo o tecido que forrava a mesa, era comum isso. E lembro das moscas. Muitas moscas e mesmo se apenas duas, já eram muitas. Eu detesto moscas. O meu pai perguntou:

— Duvida que eu mate uma mosca no ar?

Pensei: 

“Impossível, são muito rápidas”. 

Duvidei.

Ele, com um movimento, fez a mosca desaparecer. Tomei um susto. 

Matou!

Matou uma mosca por uma demonstração. 

Abriu a mão e a mosca voou.

— Pituca, para pegar uma mosca você tem que ser mais esperta que ela. Há duas formas para facilitar pegá-la: uma é quando está distraída com outra mosca e outra é quando você se adianta em seu caminho, tentando prever o lado que vai, e fecha as mãos nessa direção.

Cresci com isso em mente. Não posso me distrair e nem seguir o caminho previsível. E devo reconhecer o momento certo de agir. A sensação que ficou é de que ninguém deve morrer por uma demonstração de poder, mesmo o seu próprio. Essa é a hora de escrever. 

No meu caminho busquei aguçar o olhar; há um tempo matuto sobre as coisas que acontecem no país e no mundo. Desviei do que esperavam de mim. A minha família esperava que eu fizesse medicina e casasse com um homem rico. Rejeitei o status da medicina e o contrato econômico que é o casamento. Saúde, profissão e relação afetiva são questões que se encontram na área que escolhi estudar, a área de humanas. Um fracasso na minha família se não é do Direito.

Meus pais se separaram quando eu tinha 5 anos. No mesmo ano, minha mãe foi passar uma temporada na Suíça, lugar onde um estudante muçulmano que trabalhava 4 horas por dia “se encantou” por ela. Lá minha mãe trabalhou no Mènage Nettoyage, uma terceirizada de faxina. No Brasil, meu pai não aceitava a separação e a perseguia nos lugares. Na despedida, no aeroporto, minha disse: 

“Não quero ver ninguém chorando e se o pai de vocês aparecer e chamar vocês para irem a algum lugar, não é para ir”. Hoje isso seria chamado de alienação parental. E meu irmão Miguel desatou a chorar. Acho que ele não entendia bem os comandos, ou sempre teve mais personalidade.

Moramos com vó Láiza um tempo e foi quando estabeleci um laço mais próximo com tia Margarida e tio Tuthy, Margarida e Thuy, como eu os chamava. Eles têm uma história legal. Margarida tinha uma amiga rica que a chamou para ir a Porto Seguro. Nas prévias da viagem, Margarida foi numa cartomante de renome fazer um jogo sobre amor. Isso lá em 1988. A cartomante disse que ela ia conhecer um homem do mar, o amor da sua vida, sua alma gêmea. Chegando em Porto Seguro, havia muitos pescadores tradicionais, o que logo lhe preocupou pois não queria um “pé-rapado”. Foi assim que conheceu tio Thuy, que largou o curso de administração para fazer medicina. Na família do meu pai havia muitos médicos, mas foi por causa da família de Thuy que queriam que todas as crianças fizessem medicina.

Tio Thuty detesta cebola no prato, a textura o incomoda. Gosto desse fato. Quando tinha uns 5 anos, minha avó queria me obrigar a tomar sopa. Eu não gosto de restos. Hoje, os restos me lembram um tempo de guerra, de violência e de privação. 

— Só tomo sopa se tio Thuy comer cebola.

Eu adorava as visitas de sábado à casa de vó Delilah e vô Paiva. Não são avós de sangue, são os pais de tio Thuy. São parentes, mas não estão se tornando nada mais além de lembranças. Descansem em paz. Vó Delilah fazia um cafuné delicioso, dizia que estava catando piolho, e estalava a ponta das unhas no couro cabeludo. Adorava esse contato que eu não tinha em minha família de sangue. Vô Paiva era leve, tinha um humor ácido, cheio de causos e piadas, andava arrastando os palitinhos acoplados pela bacia à uma azeitona, sua barriga — e ele sempre fazia maior festa ao me ver. Numa das visitas, casa cheia, estava até a tia Adelina com a qual eu compartilhava o amor por filmes de terror, eu queria dar beijos em todo mundo ao chegar… como fazia com meus brinquedos antes de dormir - tinha meus prediletos mas o tratamento precisa ser igual, e então foi que:

— Essa menina é muito beijoqueira. — Margarida me redirecionou a evitar muito contato. 

Os anos foram passando e eu fui tendo dificuldade de adequar os personagens em casa. Nunca fui boa atriz para segurar um papel sozinha ou foi a representação familiar que foi se aprofundando. Era um azul-marinho, entre a superfície iluminada dos papéis na TV e as profundezas abissais reprimidas. 

Tons azulados me lembram a mãe do meu pai, uma mulher fria e distante, vó Glória. Tinha o cabelo lilás, como quem erra na matização, e pintava as unhas da mesma cor. A pele dela era muito, muito branca. Minha avó Glória foi quem deu o primeiro brinquedo que gostei - uma boneca Barbie que no sol mudava a cor do cabelo… 

A casa da Glória me deixava muito confusa: ela era surda por isso meu pai e minha tia Nina estavam habituados a falar bem alto. Além disso, meu primo Jonas, autista de nível 3 de suporte, repetia um mantra mais ou menos assim:

— ÃÃÃÃÃÑ, ÃÃÃÃÃAÑ, ÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃN…

— HEIN? — repetia minha avó Glória a cada um que olhasse para ela.

— AU! AU! AU! AU! AU! — tinha o cachorrinho de suporte emocional do meu primo.

Se não houvesse preguiça para falar, certamente, o bordão de exclusão da minha família materna seria nesse fluxo: menino, portadores de deficiências e cachorro, fora!

Eu estava nas categorias. O que sou?



Cada dia um pouco

 1

Não sei porque reluto em falar assim. Como agora transposta. Sempre crio uma ar confuso, uma nebulosa, como se realmente protestasse contra o entendimento. 

Mas o que tenho a dizer?

Os dilemas são tão comuns que, às vezes, ouço em meus pensamentos uma voz que nem é minha. Um filme, um romance, uma conhecida, sei lá...algo qualquer que tenha o mesmo enredo. 

Vida é um compilado de memórias que muda seus significados a cada experiência. 

Uma coisa permanece e isso sou eu puro. Antes da voz. 

As imagens.

Desde pequena sou vidrada em observar detalhes e contrastes. Um vulto avermelhado sobre uma tela preta marca um movimento, uma iluminação caminhante. 

Quase sendo obscura outra vez. 

2

Somos animais, fato, com instintos, odores, sentimentos, ações, criatividade...animais condicionados pelo que nos toca, pelo que nos rodeia e pelo que podemos imaginar; e essa relação, as relações com tudo que toca, desperta sentimentos sobre as coisas. Explicamos para outras pessoas o que nos causa os sentimentos e um processo por aproximação do que se é, ou se gostaria de ser, gera uma identificação que precisava acontecer para haver comunicação.  Então, tudo que sabemos sobre sentimentos são ficções de ficções.

A menos, é óbvio, que a gente não apenas reproduza. Não acho que o behaviorismo seria bom caminho de análise. A observação do comportamento não dá conta das contradições próprias no sujeito, tudo que falarmos sobre isso, sem entendermos o outro em suas palavras, é nossa projeção pura.

Às vezes, as pessoas vivem bem trocando projeções puras e se julgando a partir das ações: as brigas cíclicas por motivos aparentemente bobos.  

A questão é: inevitável porquê?

Que projeções são essas, cíclicas, fortes, de difícil superação, que nos remetem a uma relação anterior, uma experiência?

Eu acredito que experiência, ou o hábito, pode mudar de significado, e o comportamento observável não captura esse movimento. 

3

O que me preocupa não é a psicologia se tornar muito valorizada. Mas é uma consequência disso: valores culturais em torno de questão de saúde aumenta o poder médico; e a ideia da cura e do padrão tem seus fanáticos. Tenho que reler O alienista de Assis. Infelizmente, parece que toda psicologia tem algum aspecto do behaviorismo.

4

Havia um castelo. Não se pode dizer que fora criado pelas pedras de variados tamanhos e ligas retirados de outros lugares. Mesmo as daninhas que insistem em crescer mesmo sem convite, estão por um motivo. O castelo, então, também se cria. Como em memória do espaço, do seu terreno. O vento não pode apagar essa potência; em verdade, o vento faz parte dessa memória. É por essa memória, ou pela busca de recuperá-la, que se faz agentes. Agentes responsáveis pela prisão daquilo que ameaça o castelo, agentes responsáveis pela organização das funções, agentes que precisam cultivar as gramíneas para manter tudo vivo. 

Posso apresentar a estrutura aparente desse castelo, descrever ao máximo suas características; mas a medida que um invasor interrogue sobre a memória potente, as metáforas científicas ou poéticas irão brotar em sua defesa. Defesa da fonte do inexplicável. Que é isso se não a fonte da fé? 

Mais que isso, do intangível.

A defesa age quando algo avança e quer construir sobre, também acima. 

Chama-se resistência.

Apesar de gostar dessa abordagem, e não gostar da ideia de que o castelo resiste, não quero transferi-lo. É onde está propriamente a vida. Dar a alguém a fonte não significa permitir um castelo melhor, mas retirar do mistério o poder e pousá-lo em um paradigma que foge do controle: está com outro a narrativa do que acontece e do que é responsável pela cegueira.

5

Cegueira. Ausência ou excesso de luz? Aquele eu puro, antes da voz, é intangível porque a mémória potente do espaço é mística ou porque a pluralidade de abordagem sobre isso é tamanha que é impossível o denominador comum?



 











Lianda