O cigarro caía toda hora na esquina. Estou devendo. Não é à toa que uma filha de Iansã me disse que eu posso pagar todas as minhas contas em dia, mas ainda assim serei uma caloteira.

Eu recebi muitos dons na vida. Eu devo. Mas a quem? Vivo com a cabeça bagunçada e minha linha da vida nas mãos é muito curtinha para ajeitar tudo. Outra linha. Ou coração e mente estão unidas, ou só tenho o coração mesmo rompendo na minha mão.  



Motó

6 de Abril de 2020
Faz três dias que Motó, um delinquente do bairro, foi assassinado. Trabalho profissional. A vizinhança divide-se quanto ao pertencimento dos algozes: seriam da milícia ou traficantes? Ouvi de uma senhora, uma que o conheceu quando ele tinha 6 anos, que sua morte era paz para o bairro, para a família e para ele propriamente. Por cristãos, ele era visto como um escravo de demônios; senão, a personificação de um menor que caiu da luz na escuridão. Andromalius, se existem os 72 demônios, foi ouvido ao contrário: muita coisa bagunçava a mente desse rapaz. Não era perverso, sua voz que era insolente e afrontosa. Verdade seja dita que muitos gostariam de tê-lo eliminado. 
Solitário: é como eu via o errante - sempre paranóico pela vida e pelas drogas de que queriam o seu fim. 
Quanto a isso ele não estava errado.
Eu me relaciono com alguns Daemons. Personalidades que precisam estar em equilíbrio para não eu cair em desgraça. Existe uma posição central no alto da nuca em que brigam pelo protagonismo em cada situação. Quando me viro para olhar nos olhos de quem é que fala, esse ente acompanha o movimento da minha cabeça. 
Não podemos encará-los. 
É a consciência de amizade que me mantém ouvindo apenas os virtuosos. 
Eudaimonia é um termo grego que se refere à felicidade. E ninguém pode ser feliz em solidão. Eu nunca senti solidão porque o amor que recebi na vida não permite. E sou apaixonada pela solitude. Passar horas ouvindo meus Daemons. Tentar descobrir de que lugar surgiram e para onde me levam. 
A solitude é difícil em mundo narcísico. É que o resultado de nossos pensamentos não viram um produto. É nosso adubo de alma. Vendo as redes virtuais me sinto o protagonista do filme Laranja Mecânica na cena em que é telespectador forçado de série de cenas. Mas as cenas são construídas por pessoas próximas e, para eu ser democrática, tenho que curtir e mudar constantemente de canal.
Mas eu não sou sociopata.
Só estou na linha tênue no meu experimento behaviorista: entre assumir que faço parte dessa sociedade individualista e, assim, o que eu penso e escrevo é meu reflexo útil disputando atenção; ou se me abandono a ouvir quem não pode ser visto para cultivar amizade.

Sobre deusas e bruxas

Vai uma pluma de carne, osso e coragem navegar num mar incerto. Chove bastante em todas as partes, os pingos vem de todos os lados, inclusive na horizontal: furam os continentes, as ilhas, o lado das montanhas. Até mesmo o teto do mundo recebe infinitas pancadas de gotas. Ao invés de desejar uma cama quentinha e um outro objeto para chamar de meu, pego o barco de vela latina, uma bem forte e florida, e flutuo pelo oceano. Lava chuva a coragem da cara e deposita em meu peito, sua melhor casa. A coragem não merece a estabilidade dos pés.


Vai a pluma em busca de prazer e destruição, com a cabeça voltada para cima, rogando aos céus que lhe mostre um caminho nesta imensa esfera de água. Estamos cada uma em nossos barcos. Há logo à frente um redemoinho que arrasta de forma calma as mais distraídas. O que é o sorvedouro diante do tamanho das estrelas...das belas estrelas? Qual o lugar desta beleza diante de um buraco negro? 


Vai a pluma viver desejando morte e com o pescoço cansado de tanto procurar caminhos nos astros. Olhando em volta descobre que há outras plumas: algumas com mais carne, outras com mais osso. São deusas e bruxas belas. Segue então a pluma mirando a estrela dos olhos de outras corajosas que hasteiam bandeiras em seus barcos, que usam também poças de espelho e, eventualmente, se assustam com as derrotas dos anos. 


Os redemoinhos em nosso mar já se comportam como os buracos negros e num movimento espiral nos sugam violentamente, perdemos partes de nossos barcos, nossas bandeiras são rasgadas: estamos a caminho de onde não há luz nem tempo, o mais profundo nada.


Mas somos plumas de carne, osso e coragem, todas deusas e bruxas, vingamos Medusa e cada uma de nós possui as ferramentas de seu assassino: umas preferem a capa de invisibilidade, outras o escudo revérbero, outras querem viver a voar. 


O caminho que seguimos já não importa. 

Para fugirmos do buraco negro, se quisermos, precisamos apenas socializar as sandálias aladas.

Lianda