Vai uma pluma de carne, osso e coragem navegar num mar incerto. Chove bastante em todas as partes, os pingos vem de todos os lados, inclusive na horizontal: furam os continentes, as ilhas, o lado das montanhas. Até mesmo o teto do mundo recebe infinitas pancadas de gotas. Ao invés de desejar uma cama quentinha e um outro objeto para chamar de meu, pego o barco de vela latina, uma bem forte e florida, e flutuo pelo oceano. Lava chuva a coragem da cara e deposita em meu peito, sua melhor casa. A coragem não merece a estabilidade dos pés.
Vai a pluma em busca de prazer e destruição, com a cabeça voltada para cima, rogando aos céus que lhe mostre um caminho nesta imensa esfera de água. Estamos cada uma em nossos barcos. Há logo à frente um redemoinho que arrasta de forma calma as mais distraídas. O que é o sorvedouro diante do tamanho das estrelas...das belas estrelas? Qual o lugar desta beleza diante de um buraco negro?
Vai a pluma viver desejando morte e com o pescoço cansado de tanto procurar caminhos nos astros. Olhando em volta descobre que há outras plumas: algumas com mais carne, outras com mais osso. São deusas e bruxas belas. Segue então a pluma mirando a estrela dos olhos de outras corajosas que hasteiam bandeiras em seus barcos, que usam também poças de espelho e, eventualmente, se assustam com as derrotas dos anos.
Os redemoinhos em nosso mar já se comportam como os buracos negros e num movimento espiral nos sugam violentamente, perdemos partes de nossos barcos, nossas bandeiras são rasgadas: estamos a caminho de onde não há luz nem tempo, o mais profundo nada.
Mas somos plumas de carne, osso e coragem, todas deusas e bruxas, vingamos Medusa e cada uma de nós possui as ferramentas de seu assassino: umas preferem a capa de invisibilidade, outras o escudo revérbero, outras querem viver a voar.
O caminho que seguimos já não importa.
Para fugirmos do buraco negro, se quisermos, precisamos apenas socializar as sandálias aladas.