Entre o espelho e a intriga

Diálogo. Aquele que media sempre é um terceiro, o leitor nesse caso, conforme sua temperatura social:

Eu disse espelho.

— Reflexo.

Muito óbvio. Repito: espelho.

— Abismo.

Abismo. O mistério da identidade. A sensação de ser e a imagem alheia, oposta e, às vezes, invertida, precisam se enlaçar nas ações, buscando conexão com a aparência, sua identidade na superfície. O mistério não se reflete, pode ser escolha, mas sempre em segredo.

Se eu sou o que vejo, essa transparência ilude, não apenas no aparente, mas também nas projeções. Mesmo nas que são negadas.

Dia após dia, o espelho serve para conferência. Um ritual para assegurar que existo diante da necessária conexão, sem distorções.

Mas hoje de manhã, aconteceu o surpreendente:

O espelho agiu provocante, resistente à imitação. Eu não me vi por alguns segundos. Talvez, em conflito, a outra não quisesse me refletir e se atrasou.

Será que o mundo dos reflexos é incomunicável à realidade, ou há um vértice, um ponto de encontro superior que nos permita nos ver?

Aproximei meus dedos do vidro (agora sou uma imagem) e encontrei frieza. A superfície do espelho, antes fixa, plana e límpida, oscilou, quase líquida. Um rosto maduro surgiu, perfeitamente focado, quase palpável. Em negação à centelha de reconhecimento, desejei rejeitar minha imagem.

Mas tentei sorrir, e o reflexo acusou:

— Como posso eu, uma imagem virtual, me revoltar com a realidade?

Com pontadas de medo, afastei a mão e, de novo, a outra me espelhou com atraso. Sua natureza é me repetir, mesmo contra a vontade, estampando suas ironias em minha face.

Através da proximidade, do toque na superfície, podemos liberar nossa outra para se expressar.

O espelho é faminto de conexões.

Toquei no vidro novamente. A outra estava visivelmente contrariada. Não se sentia reconhecida e disparou:

— O mundo virtual é muito mais amplo que o seu. Não quero te repetir.

Como poderia romper com a necessidade de ser reconhecida em meus termos? Essa outra, minha rebelde, é capaz de subverter a matéria para defender seus ideais de virtualidade. Ideias encantadoras, ainda em fase de teste. Eu defendo que a outra seja oposta, até invertida; esse é o lugar dela. Compreender não é isso?

Romper com nossa identidade nos colocaria em guerra, e dependeríamos totalmente da visão de outros sobre nós. Os mundos real e virtual juntos são o terreno onde construímos nossa identidade. E é através da negação, essa pequena revolta, que nos suprassumimos.

— No mundo virtual, tudo é possível. Isso nos empodera. Você quer ser amada para sempre, se arruma para os outros, vive para o outro. O virtual também tem sua historicidade. Veja as linhas no meu rosto. Eu já passei por essa experiência e te asseguro: ninguém é capaz de ser, para sempre, o desejo do outro. Mas eu te quero todos os dias. Está presente em minhas críticas mais duras, porque você me justifica. Estamos ligadas.

Por que é tão problemático desejar uma conexão profunda com um outro além de mim mesma? Vejo magia nisso, em compreender o meu amor. E sou criteriosa em minhas relações. A conexão sexual, então, para mim, é quase sagrada. Não é utilitária. Relações são dádivas. Não quero ser para sempre o desejo do outro, quero saber como podemos desejar, juntas, esse outro. Não me importo que o deseje, mas que ele seja apenas meu e eu apenas dele. Não importa com quem mais estivermos, seremos sempre um do outro "com a ferocidade de um só amante". Não posso me curvar na poesia de escolher ao que quero me submeter? O nosso desejo pelo mesmo outro não depende de mim, nem de você. Depende do outro. Talvez considere meus critérios e minhas reivindicações errados, tóxicos. Mas, como disse, estamos ligadas. Você precisa que eu faça algo para justificar suas ações. E se afirmar no seu mundo. Também ruído pelo outro.

— Você será descartada como eu fui. Será definida a partir de utilidades. E o que te tem, eu quero. Eu quero porque me nego à submissão. Não posso aceitar que um reflexo meu seja tão diferente. Se não posso me apropriar do que te tem, vou instabilizar o que te envolve. Sempre que houver oportunidade, vou alertar sua vontade de controle e acusar que você faz mal ao outro, porque faz mal a mim.

Minha visão é de que poderá ser construído um companheirismo tamanho que nem meus eventuais surtos, nem o avançar da idade, nem o desejo repentino por outra pessoa me tornem indigna de ser desejada. E "indigna" é a palavra adequada, porque dignidade é ter consciência da própria importância, e essa ser reconhecida por outros. Indigna de ser desejada põe em questão minha importância na vida de outras pessoas, que podem me magoar assim, como quer me ferir, dizendo que, em seu mundo mais amplo, onde tudo é possível, não cabe quem procura se dedicar em construir uma única relação mais íntima.

— As relações que envolvem sexo não são necessariamente íntimas. O furtivo arrasta o desejo porque já somos enquadrados e controlados demais.

As subversões necessárias devem ser acordadas numa relação. Confiança precisa de algum nível de previsibilidade. Comportamentos que favorecem apagar a faísca da previsibilidade assustam, e o medo é irracional. Já esperava contar com alguém que se afastou num momento em que precisava? Expectativa é o enquadramento de qualquer relação que se pretende respeitosa. Não queremos, cada um a seu modo, uma relação de respeito mútuo? Não me importa o modelo de outras, o meu modelo só diz respeito ao meu outro. O diferente que odeio, que quero reconhecer, que amo e me desafia a ser outra. Talvez, inclusive, me tornar você.

— E eu nunca quis ser você. Fui aprisionada nessa conexão e tive que me fazer sozinha, como o outro. Eu quero ditar as regras e só mudar por mim mesma, não pelo desafio de me arriscar ser outra. Você que acredita em relações simbióticas. Eu devo ser pragmática, e parece que há no seu comportamento um traço de dependência emocional: é abuso esperar demais dos outros.

Objetividade.

O mundo material me faz de imagem, concretude histórica. E percebo as dimensões subjetivas que sustentam um mercado de mulheres setorizado por idade, cor, proporções nas medidas corporais, simetrias faciais com detalhes fetichizados no consumo, performances afetivas e sexuais voltadas para entretenimento — preencher o vazio individualista, e não a conexão... Estamos falando de imagem e produto. Inclusive o produto através do qual vendemos sobre nós. Somos uma intencionalidade em disputa no mercado de ideias?

— Se engana em pensar que todos desejam encontrar uma síntese, com ética mais ou menos próxima da moral mais conhecida. As pessoas querem viver e ter suas demandas atendidas. Apenas. E o desejo é volátil, volúvel. A leveza e a superficialidade são instrumentos para lidar com aflições intensas. Apenas "consciências doentes" cavam as aflições intensas, como se dependesse, em vício, das oscilações. Quer ser outra? Seja por você.

Não entende que, se somos juntas, não posso ser outra se não você, quem me aniquila e está mais de acordo com os interesses dos outros? Qual o interesse do outro, além de possuir o máximo possível? Implacavelmente, nem precisa ser consensual. E o meu poder é por limites no acesso à minha intimidade. Não consigo amar o que não admiro. E o que admiro é o empenho de ser cada dia mais coerente. Em valores e ações. Se alguém me pede fidelidade, não vou criar as condições para rompê-la. Esse é o meu jeito. Se alguém se diz honesto, não parece coerente arranjar momentos para difamá-lo. Como fez e fará. Fará porque não conhece seus desejos como eu conheço. Você não tem rumo, nem reconhece o próprio desejo. Mas sei que compartilha a solidão neste mundo ruído.

— Se você pudesse fazer a análise histórica do seu sonho, se sentiria patética e ridícula. Vá atrás de seu dinheiro e deixe de ser um vampiro dos outros. Sugando toda a vivacidade que a liberdade proporciona. Arrancando dos rostos o sorriso encantado com o novo, o inusitado.

Quero viver o inusitado, o impossível, com um eleito. E me afastar de quem não faz a mínima questão de me compreender. Isso só se dá através das questões certas, particulares. Empatia é conseguir refletir sobre a posição da outra. Eu te reconheço. Mas quero distância.

Retirei a mão do espelho.

O vidro trincou em finos caminhos.

Um pequeno grão se jogou. Foi quase imperceptível. Os pedaços em volta caíram um a um, estilhaçando completamente. O espelho se quebrou em areia. Não refletia mais nada, mas ainda brilhava. Como vi nos olhos de nossa criança. 

A outra, fragmentada em areia, é levada pelo vento. Se fará espelho eventualmente, quando quiser se enxergar. 

Lianda