Um senhor quadrado, achatado pela cabeça, passava pela estrada de barro com seu passo pendular.
Daqui da margem, eu ouvia o vento trazer as histórias da sua má disposição na vida. Centenária, e quantos centos já não conto, sei bem do problema de família.
A genealogia dos Ferreira tem uma maldição que não é apenas estética.
As gerações que os atravessaram acusavam repugnância à bolsa que portavam pelos umbigos. Trata-se de um resíduo da desconexão com o mundo e com tudo que serviria de alimento um dia. Ainda moço, esse senhor se recostou em meu colo e confissões foram feitas - ouvi sobre seus ímpetos raivosos quando explodia socos e pontapés. Revelou o que havia em sua vesícula umbilical: a imagem de seu pai o chicoteava para domar cavalos.
Essa memória era a forma de um sentimento que pesava bem no meio da sua barriga. Pelo que entendi, a cada momento que se sentia ameaçado, a vesícula liberava em suas veias o sentimento que guardava.
Enquanto outros rapazes e moças caçoavam da aberração que não se escondia sob as roupas, por dentro, dores rasgavam para que domesticasse animais.
Dentro de mim só há nutrientes, não sei como as imagens se depositam nas bolsas.
Compreendo que, se a imagem desse senhor remete a violência humana para lidar com animais, animal se torna para lidar com a incomunicação humana. A incapacidade de linguagem entre cavalos e humanos sempre gerou uma animalização dos sedentos por controle.
O senhor Ferreira, desde que a memória se instalou em seu umbigo, se tornou um cavalo a dar coices.