Aos racionais desde criança, qualquer coisa polêmica

 

Já fui uma pessoa das 10, das 5 e, agora, das 3. Significa "não importa a hora de dormir, o acordar é automático". Certa vez, quando saí de casa apenas para passear, lembrei de alguém falando que em toda cidade há, pelo menos, uma pessoa que se perdeu no papel e fica conhecido pelas repetições. 

Lembrei de comentários temerosos sobre o Jaime Figura, um artista de Salvador que se vestia de sucata e circulava pela cidade em silêncio. Sua figura me remetia a uma bela decadência e não me admira que o sentimento mais comum compartilhado tenha sido o medo: levar uma crítica ao seu limite, como vestir uma lataria tal qual trabalhadores entram em máquinas de transporte, tem um quê de repetição desprazerosa. Já ouvi a história de uma mulher "louca" que se arrumava de forma cuidadosa - impecável, e saía pelas ruas sem propósito. Talvez fosse uma artista também, pondo em relevo o que se espera das mulheres todos os dias: exclusivamente, enfeitar a rua. 

Há formas cotidianas de repetição, como meus horários sistemáticos e minha compulsão por escovar os dentes, imediatamente, após o alimento. Há formas institucionalizadas de repetição, como o trabalho. Há formas biográficas e históricas de repetição geradoras de ladainhas, fato é que todos temos ladainhas ou estamos inseridos numa compulsoriamente. 

Dia desses estava, em defesa do comportamento de outra pessoa, especulando que somos não o que pensamos ser, mas aquilo que é reconhecido como nosso "defeito". A "imperfeição" da personalidade, como pode-se falar em egoísmo, ganância, teimosia, soberba, violência etecetera, é um automatismo: uma resposta que se repete a um contexto cuja mediação é extremamente custosa para o indivíduo. E duvido de quem me diz que não existe isso de defeito, é assim que relacionamentos acabam: uma repetição parece insuperável de um lado e se faz insuportável para o outro.

Ontem mesmo encontrei uma pessoa que falou, repetidamente, o quão era interessante sua biografia. Com essas palavras. Não morava com a mãe, morava com o pai e sentia que este o havia abandonado porque ele era muito racional desde criança - só tivera adultez emergente. Eu não estava interessada e a cada história de sua infância ou adolescência ou adultez emergente que influenciou suas escolhas teóricas e políticas me entediava mais. Muita gente sabe que gostaria de estudar o tédio estético que me acomete há alguns anos. Eu tentei algumas vezes mandar sinais ao moço que ele estava monopolizando a conversa falando de si próprio. Despertei minha analista, que tinha levado ao bar para dopar, a propósito de fazê-lo perceber que sua demanda estava muito grande. 

Depois de muitos sinais e esgotadas as possibilidades pedagógicas em termos de cuidado e ética na intervenção, e meu limite é bem alto, descambo para a crítica. Confesso o meu automatismo do espírito: quando eu perco a paciência, sou uma crítica feroz. Soberba é tolerável, afinal, se não nos valorizarmos, quem irá? Mas arrogância, masculina principalmente, me enerva. Mudei o tom do cuidado para o constrangimento. Inútil. Tipos muito egóicos da "contemporaneidade" não se constrangem - lacram. Isso porque o juízo do "mandar bem" é pessoal ou, no máximo, tribal. 

Mas o propósito desse escrito é pensar sobre o automatismo.

O humano é mutável, mas desconfio da plasticidade individual. Há manejos e manobras do indivíduo para lidar com suas repetições, mas está lá ainda não superado, como um piquete para baliza. É na cadência dessas metáforas que prossigo: o volante está ao alcance das mãos, girando em sentidos e alterando a direção dos deslocamentos, e tudo que eu queria era que os piquetes fossem os das greves. Aos racionais desde criança, mais crítica social e menos individualismo.






Lianda