Uma coleção de imagens. Um eu reunido pela obsoleta televisão de tubo. Não era exatamente parâmetro de conduta, mas a parabólica transmitia formas possíveis e diferentes do habitado em minha realidade. Gostava que cada botão estalasse quando apertado e…
“VOCÊ VAI QUEBRAR ESSES BOTÕES!”
...quando punha minha íris a um trisco de distância da tela tricromática, ficava encantada com fileiras e mais fileiras de retângulos abobadados verde, azul e vermelho. De tudo que me criou aquela tela de tubo era, de perto, a mais colorida. Imaginava que cada pessoa era formada de pequenos pedacinhos de cores, que também o mundo inteiro fora feito assim…
“MENINA, TIRA ESSA CARA DA TELEVISÃO, VAI FICAR CEGA!”
… as cores gostam de movimento, dançam em volta de uma fogueira branca e depois repousam no limiar dos contrastes. Vibram a cada momento…
“Está ‘malovidinha’, é?” — já torcendo minha orelha.
… quando percebemos suas belezas.
Às vezes eu escutava minha mãe gritando comigo essas coisas, mas eu não conseguia responder. Era como se estivesse magnetizada no vidro, desincorporada como uma imagem na tela. Acho que eu sempre gostei de me desincorporar; ainda hoje, literalmente, mergulho no vermelho vivo quando, de olhos bem fechados, encaro o sol — até eu mesma ser sanguínea. Mesmo infelizmente quando volto à realidade, sou bem recebida por um azul temporário. Minha cor principal.
Sabem porque eu estou escrevendo? eu não sei mais me expressar - apesar de ter começado a falar fluente com 1 ano. Talvez a minha cabeça tenha falado tanto durante muito tempo e agora, quando abro a boca, várias sequências querem sair ao mesmo tempo: como se só fosse capaz de conversar relacionando, pelo menos, três eixos. O ensaio parece melhor antes de escrevê-lo.
Interferências
Entrou na loja a mãe da minha colega de trabalho e perguntou "Está gostando?". Estruturalmente falando, gosto das cores e do tímido brilho amarelado da loja. Em geral, pelo percurso, detesto a iluminação de shoppings e farmácias, detesto que haja muitas músicas tocando ao mesmo tempo. Fico muito estimulada e confusa. Me preocupa que as peças sejam caras e algumas tenham pequenas avarias: se a loja não vender, não sei se terei um emprego. É um trabalho de meio-período, 6 horas; acho curioso chamar assim porque parece que um período inteiro seria de 12 horas… mas é a forma de pagar meio-salário mínimo.
Sai um "Tudo bem" rápido e agudo como se esperasse responder outra coisa.
Saiu. E com minha experiência, tentar explicar piora. Já tenho fama de prolixa.
Deixo assim.
LEMBRANÇAS DA DÉCADA DE 90
No ano em que nasci, 1989, foi a primeira eleição direta para presidente da república. A campanha do Collor era azul riscada de verde e amarelo e seu governo foi marcado pela alta inflação crônica. O Miguel, meu irmão mais velho, tem lembrança do que era para a família ver um preço de alimento no mercado e logo depois, às vezes no mesmo dia, o mesmo produto ficar muito mais caro. Quando as coisas estavam com preço mais baixo, as famílias com maior poder aquisitivo faziam estoques, os mais empobrecidos gastavam de vez o salário em compras por receio da desvalorização da moeda. As prateleiras eram esvaziadas rapidamente, assim como os bolsos. Pelo governo eleito, as poupanças também foram esvaziadas, de quem as tinham.
Mas não eram apenas as prateleiras dos mercados que esvaziavam. O Miguel disse que também em nossa casa desapareciam coisas misteriosamente, como sofá, móveis e televisores.
Na década de 90, não lembro de ver muitos programas para crianças. Gostava de filmes de terror. Lembro de cenas de uma novela chamada "Vamp". Tinha a novela "Tieta", na programação do "Vale a pena ver de novo" da Globo. Não era um tabu na minha família vender almas a vampiros ou liberdade sexual. Em 98 mesmo, quando morei com minha tia Margarida, irmã de minha mãe, acompanhei uma minissérie chamada "Hilda Furacão" - história na qual uma moça da alta sociedade mineira abandona o casamento, se torna meretriz e se apaixona por um padre. Eu tinha 8 anos. Fiquei surpresa do quanto se tornaram conservadores. Com o avançar da idade parece que retornamos às referências da infância: como se fosse resposta gravada à sensação de desamparo.
Certa vez, minha tia materna mais jovem, a Mérida, disse sobre mim e meus irmãos: esses meninos se criaram sozinhos! Não é verdade, desde que nascemos, tudo nos cria, família, animais, tecnologia...e tudo gasta energia. Quando nossa casa estava alagada, nos abrigávamos na casa de minha avó materna. Láiza. Eu não via TV na casa da minha avó Láiza. Não podíamos comer muito nem fazer nada que gastasse energia.
“ESSAS TRAÇAS SÓ VEM TRAZER DESPESAS”
As obrigações das crianças na minha família sempre foram fazer silêncio, arrumar sua própria bagunça e tirar notas boas. A primeira vez que um adulto me pediu ajuda numa tarefa doméstica, eu tinha 5 anos:
— Marina, vá enxugar os pratos.
— Porque eu e não Miguel que já tem 11 anos?
— Por que eu estou mandando você! — disse minha avó Láiza enquanto torcia minha orelha esquerda.
Na casa de vó Láiza eu entendi que o mundo era dos adultos.
Às vezes eu me esgueirava para escutar as conversas na cozinha, como se fosse a novela da vida real.
— Menino e cachorro, fora! — esse era o bordão predileto daquele ambiente.
Minha avó Láiza e meu avô Toro não demonstravam afeto. Para comigo, Miguel e Murilo, meu irmão mais novo, o sentimento de vó Láiza parecia algo como compaixão. A primeira atividade que ela me ensinou foi rezar.
Sendo grata, poderá diminuir seu sofrimento.
Láiza gostava muito do meu pai. Contava rindo da vez que, pouco antes de eu nascer, ele vendeu o apartamento em que morava com minha mãe e com o Miguel para comprar um Chevrolet Opala, o top de linha.
— E A GENTE VAI MORAR ONDE? NO CARRO? — representava minha mãe gritando com meu pai.
A minha mãe tem mania de roer as unhas. Tanto que seus dedos tem um formato estranho, como se de tão pouca unha, as pontas fossem repuxadas para trás deixando uma linha de três milímetros de queratina entre a extremidade das mãos e o mundo. Finíssima camada.
Tínhamos também mania de roer as unhas e o meu avô Toro batizava de inchaço as costas das nossas mãos com um tapa de dois dedos bem grossos. Eu e meus irmãos temos a mesma textura áspera nas mãos, mas não as usamos com violência. Ele também detestava a mania de andarmos descalços, meus pés ficavam marcados dos pisões do chinelo Rider dele, tinha uma textura antiderrapante profunda e o material era uma borracha bem resistente. Doía.
Meu avô Toro tinha uma brincadeira de suspender eu e meus irmãos pela cabeça, eu gostava dessa brincadeira, ou pelo “bucho”, aí eu não deixava, saía correndo.
Miguel me disse uma vez que uma rede de violência se repete como um ciclo até que alguém o interrompa. Ou apenas saia correndo. Eu era uma criança quieta, costumava ser obediente e até amorosa - a minha face de ira e violência se voltava contra o Murilo, meu irmãozinho 1 ano e 11 meses mais novo. Ele me seguia o dia inteiro, tudo ele queria fazer junto comigo e eu precisava ficar sozinha, ele era um imitão.
Eu também seguia e imitava como uma sombra as personagens da TV. Mas eu mesma não queria ter uma cópia.
Murilo deve ter começado a falar com uns 3 anos. Quando tinha uns dois, lembro que o chamei para o quarto mais afastado da sala e disse que íamos refazer uma cena. Expliquei tudo direitinho. Vesti ele de menina e comecei a repetir energicamente o texto, simulando berros, impropérios, contra “ela”. Era uma cena em que duas mulheres brigavam. Tinha visto aquilo numa novela. O guri não sabia falar e explodiu o maior choro:
— É de mentirinha! É a cena! Eu te expliquei! Não precisa chorar! Não grita!
Tarde demais.
Eu, diretora e atriz, fui interrompida por uma polícia truculenta; a minha mãe não deixou eu explicar e já chegou batendo. Seja família, seja a polícia, essas instituições estruturadas em hierarquias, tendem a oprimir e reprimir uns tipos específicos.
Hoje eu entendo. São muitas coisas que transformam o diálogo em repetidos movimentos com cintos, vassouras, sandálias ou sem instrumentos, com as mãos abertas ou fechadas. A casa alaga, três filhos, cachorros, o marido narcólatra e possivelmente bipolar. Filha de mãe manipuladora e pai bruto, a primogênita e irmã de muitos, frustrada profissionalmente…
Um dia o meu pai chegou muito bêbado. Na minha leitura, ele tentou abraçar a minha mãe e então ela o empurrou. Cerca de um metro e noventa de altura despencou e partiu a cabeça. Eu vi sangue.
— Olha o que você fez com ele!
Já tinha visto sangue antes. Não só na TV, sabia que doía. Disseram para eu não mexer na lâmina de barbear e precisei ficar algum tempo escondendo minha dor para que minha mãe não reclamasse. Sobre a pergunta "o que devo fazer?" esconder as dores tem sido o que tenho feito melhor.
Voltando ao Murilo, hoje eu entendo porque ele queria ficar próximo de mim. Eu era a pessoa favorita dele. Só soube o que era isso aos 11 anos, antes disso eram objetos “minhas pessoas” favoritas. A TV já disse. Amava dois prendedores de cabelo em forma de borboleta. Tinha um chinelo de borracha preta com tiras acolchoadas roxas. Tinha um vestido vermelho com coração de babado branco no tórax. Tinha a Manuele, uma boneca de tranças em maria chiquinha com vestido e chapeuzinho em touca, tecido lilás e floral. E tinha o Marcelo, um macaco branco com lacinho dourado no pescoço, meu preferido: quando meu avô Toro me deu, tinha uma banana presa em suas mãos; tratei de descosturar, o coitado não poderia dormir na cama segurando comida.
Apesar do Marcelo ser meu preferido, todos tinham tratamento igual, dormiam comigo e recebiam beijo de boa noite. Prática que vi entre humanos na TV. Pensando bem, talvez gostasse dos objetos como extensão de quem me dera, gostava das pessoas ou pelo menos queria que me vissem e cuidassem de mim.
Por ter sido criada com a TV, desenvolvi uma sensação constante de estar sendo observada. Quando eu tinha 4 anos, lembro de acordar no meio da madrugada sentindo o meu travesseiro ser puxado para fora da cama — apesar de ser familiarizada com filmes de terror, não senti medo. Pensei que o diretor gostaria de ver a minha reação diante do inexplicável. Uma mão estranha surgiria? E fiquei parada apenas olhando o espaço entre o chão e o travesseiro.
Minha atenção costumava transitar entre uma coisa e outra. Acredito que ainda é assim, com a diferença de existirem mais elementos e discussões sobre cada sistema. No ano de 1994, fui com meu pai encontrar uma tia e uma prima de idade próxima. Eu achava a Julia bem bonita. Quando nos encontramos, olhei para cima e os dois sorrisos diziam que era bom nos vermos pois nos gostávamos muito. Para cada ideia deve haver uma representação. No mesmo momento, como um comando, eu abracei a Julia forte para ilustrar aquelas palavras. E como um bom cachorrinho, recebi minha parte de elogio da beleza. Esse foi o mesmo ano que estava obcecada à espera de surgir uma mão, ou um corpo, que justificasse o deslize do travesseiro. Esse personagem nunca entrou em cena.
Então é isto: não é apenas ver o espaço entre uma coisa e outra, é preciso agir. E foi ali, aos 4 anos, que iniciou o meu tormento: o que devo fazer?
O Miguel dizia que até pouco depois dessa idade eu ainda era amorosa. Eu sempre recebia elogios após beijos e abraços. Reforço positivo. Mas bastava uma referência contrária para eu mudar de direção. E então me pergunto: tendo tão poucas lembranças do meu pai, como pode ele ter sido a figura mais presente em meus conflitos?
Certa vez estava apenas eu e meu pai na cozinha em nossa casa que alagava. Mas era como se alugada. Tratava-se de uma espécie de consórcio de casas chamado BNH. Pagava-se mensalidade, se não pagasse durante um tempo, a casa ia para leilão ou fazia-se um acordo individual, transferindo um montante e tendo o compromisso de continuar pagando as mensalidades. Esse acordo individual foi o que minha mãe fez.
Lembro da iluminação baixa, como se sempre fosse dia e estivesse nublado. Lembro do plástico na mesa cobrindo o tecido que forrava a mesa, era comum isso. E lembro das moscas. Muitas moscas e mesmo se apenas duas, já eram muitas. Eu detesto moscas. O meu pai perguntou:
— Duvida que eu mate uma mosca no ar?
Pensei:
“Impossível, são muito rápidas”.
Duvidei.
Ele, com um movimento, fez a mosca desaparecer. Tomei um susto.
Matou!
Matou uma mosca por uma demonstração.
Abriu a mão e a mosca voou.
— Pituca, para pegar uma mosca você tem que ser mais esperta que ela. Há duas formas para facilitar pegá-la: uma é quando está distraída com outra mosca e outra é quando você se adianta em seu caminho, tentando prever o lado que vai, e fecha as mãos nessa direção.
Cresci com isso em mente. Não posso me distrair e nem seguir o caminho previsível. E devo reconhecer o momento certo de agir. A sensação que ficou é de que ninguém deve morrer por uma demonstração de poder, mesmo o seu próprio. Essa é a hora de escrever.
No meu caminho busquei aguçar o olhar; há um tempo matuto sobre as coisas que acontecem no país e no mundo. Desviei do que esperavam de mim. A minha família esperava que eu fizesse medicina e casasse com um homem rico. Rejeitei o status da medicina e o contrato econômico que é o casamento. Saúde, profissão e relação afetiva são questões que se encontram na área que escolhi estudar, a área de humanas. Um fracasso na minha família se não é do Direito.
Meus pais se separaram quando eu tinha 5 anos. No mesmo ano, minha mãe foi passar uma temporada na Suíça, lugar onde um estudante muçulmano que trabalhava 4 horas por dia “se encantou” por ela. Lá minha mãe trabalhou no Mènage Nettoyage, uma terceirizada de faxina. No Brasil, meu pai não aceitava a separação e a perseguia nos lugares. Na despedida, no aeroporto, minha disse:
“Não quero ver ninguém chorando e se o pai de vocês aparecer e chamar vocês para irem a algum lugar, não é para ir”. Hoje isso seria chamado de alienação parental. E meu irmão Miguel desatou a chorar. Acho que ele não entendia bem os comandos, ou sempre teve mais personalidade.
Moramos com vó Láiza um tempo e foi quando estabeleci um laço mais próximo com tia Margarida e tio Tuthy, Margarida e Thuy, como eu os chamava. Eles têm uma história legal. Margarida tinha uma amiga rica que a chamou para ir a Porto Seguro. Nas prévias da viagem, Margarida foi numa cartomante de renome fazer um jogo sobre amor. Isso lá em 1988. A cartomante disse que ela ia conhecer um homem do mar, o amor da sua vida, sua alma gêmea. Chegando em Porto Seguro, havia muitos pescadores tradicionais, o que logo lhe preocupou pois não queria um “pé-rapado”. Foi assim que conheceu tio Thuy, que largou o curso de administração para fazer medicina. Na família do meu pai havia muitos médicos, mas foi por causa da família de Thuy que queriam que todas as crianças fizessem medicina.
Tio Thuty detesta cebola no prato, a textura o incomoda. Gosto desse fato. Quando tinha uns 5 anos, minha avó queria me obrigar a tomar sopa. Eu não gosto de restos. Hoje, os restos me lembram um tempo de guerra, de violência e de privação.
— Só tomo sopa se tio Thuy comer cebola.
Eu adorava as visitas de sábado à casa de vó Delilah e vô Paiva. Não são avós de sangue, são os pais de tio Thuy. São parentes, mas não estão se tornando nada mais além de lembranças. Descansem em paz. Vó Delilah fazia um cafuné delicioso, dizia que estava catando piolho, e estalava a ponta das unhas no couro cabeludo. Adorava esse contato que eu não tinha em minha família de sangue. Vô Paiva era leve, tinha um humor ácido, cheio de causos e piadas, andava arrastando os palitinhos acoplados pela bacia à uma azeitona, sua barriga — e ele sempre fazia maior festa ao me ver. Numa das visitas, casa cheia, estava até a tia Adelina com a qual eu compartilhava o amor por filmes de terror, eu queria dar beijos em todo mundo ao chegar… como fazia com meus brinquedos antes de dormir - tinha meus prediletos mas o tratamento precisa ser igual, e então foi que:
— Essa menina é muito beijoqueira. — Margarida me redirecionou a evitar muito contato.
Os anos foram passando e eu fui tendo dificuldade de adequar os personagens em casa. Nunca fui boa atriz para segurar um papel sozinha ou foi a representação familiar que foi se aprofundando. Era um azul-marinho, entre a superfície iluminada dos papéis na TV e as profundezas abissais reprimidas.
Tons azulados me lembram a mãe do meu pai, uma mulher fria e distante, vó Glória. Tinha o cabelo lilás, como quem erra na matização, e pintava as unhas da mesma cor. A pele dela era muito, muito branca. Minha avó Glória foi quem deu o primeiro brinquedo que gostei - uma boneca Barbie que no sol mudava a cor do cabelo…
A casa da Glória me deixava muito confusa: ela era surda por isso meu pai e minha tia Nina estavam habituados a falar bem alto. Além disso, meu primo Jonas, autista de nível 3 de suporte, repetia um mantra mais ou menos assim:
— ÃÃÃÃÃÑ, ÃÃÃÃÃAÑ, ÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃN…
— HEIN? — repetia minha avó Glória a cada um que olhasse para ela.
— AU! AU! AU! AU! AU! — tinha o cachorrinho de suporte emocional do meu primo.
Se não houvesse preguiça para falar, certamente, o bordão de exclusão da minha família materna seria nesse fluxo: menino, portadores de deficiências e cachorro, fora!
Eu estava nas categorias. O que sou?