Lembranças de uma Televisão


Uma coleção de imagens. Um eu reunido pela obsoleta televisão de tubo. Não era exatamente parâmetro de conduta, mas a parabólica transmitia formas possíveis e diferentes do habitado em minha realidade. Gostava que cada botão estalasse quando apertado e…

“VOCÊ VAI QUEBRAR ESSES BOTÕES!” 

...quando punha minha íris a um trisco de distância da tela tricromática, ficava encantada com fileiras e mais fileiras de retângulos abobadados verde, azul e vermelho. De tudo que me criou aquela tela de tubo era, de perto, a mais colorida. Imaginava que cada pessoa era formada de pequenos pedacinhos de cores, que também o mundo inteiro fora feito assim…

“MENINA, TIRA ESSA CARA DA TELEVISÃO, VAI FICAR CEGA!”

… as cores gostam de movimento, dançam em volta de uma fogueira branca e depois repousam no limiar dos contrastes. Vibram a cada momento…

“Está ‘malovidinha’, é?” — já torcendo minha orelha.

… quando percebemos suas belezas. 

Às vezes eu escutava minha mãe gritando comigo essas coisas, mas eu não conseguia responder. Era como se estivesse magnetizada no vidro, desincorporada como uma imagem na tela. Acho que eu sempre gostei de me desincorporar; ainda hoje, literalmente, mergulho no vermelho vivo quando, de olhos bem fechados, encaro o sol — até eu mesma ser sanguínea. Mesmo infelizmente quando volto à realidade, sou bem recebida por um azul temporário. Minha cor principal.

Sabem porque eu estou escrevendo? eu não sei mais me expressar - apesar de ter começado a falar fluente com 1 ano. Talvez a minha cabeça tenha falado tanto durante muito tempo e agora, quando abro a boca, várias sequências querem sair ao mesmo tempo: como se só fosse capaz de conversar relacionando, pelo menos, três eixos. O ensaio parece melhor antes de escrevê-lo. 

Interferências

Entrou na loja a mãe da minha colega de trabalho e perguntou "Está gostando?". Estruturalmente falando, gosto das cores e do tímido brilho amarelado da loja. Em geral, pelo percurso, detesto a iluminação de shoppings e farmácias, detesto que haja muitas músicas tocando ao mesmo tempo. Fico muito estimulada e confusa. Me preocupa que as peças sejam caras e algumas tenham pequenas avarias: se a loja não vender, não sei se terei um emprego. É um trabalho de meio-período, 6 horas; acho curioso chamar assim porque parece que um período inteiro seria de 12 horas… mas é a forma de pagar meio-salário mínimo.

Sai um "Tudo bem" rápido e agudo como se esperasse responder outra coisa.

Saiu. E com minha experiência, tentar explicar piora. Já tenho fama de prolixa.

Deixo assim.

LEMBRANÇAS DA DÉCADA DE 90

No ano em que nasci, 1989, foi a primeira eleição direta para presidente da república. A campanha do Collor era azul riscada de verde e amarelo e seu governo foi marcado pela alta inflação crônica. O Miguel, meu irmão mais velho, tem lembrança do que era para a família ver um preço de alimento no mercado e logo depois, às vezes no mesmo dia, o mesmo produto ficar muito mais caro. Quando as coisas estavam com preço mais baixo, as famílias com maior poder aquisitivo faziam estoques, os mais empobrecidos gastavam de vez o salário em compras por receio da desvalorização da moeda. As prateleiras eram esvaziadas rapidamente, assim como os bolsos. Pelo governo eleito, as poupanças também foram esvaziadas, de quem as tinham.

Mas não eram apenas as prateleiras dos mercados que esvaziavam. O Miguel disse que também em nossa casa desapareciam coisas misteriosamente, como sofá, móveis e televisores. 

Na década de 90, não lembro de ver muitos programas para crianças. Gostava de filmes de terror. Lembro de cenas de uma novela chamada "Vamp". Tinha a novela "Tieta", na programação do "Vale a pena ver de novo" da Globo. Não era um tabu na minha família vender almas a vampiros ou liberdade sexual. Em 98 mesmo, quando morei com minha tia Margarida, irmã de minha mãe, acompanhei uma minissérie chamada "Hilda Furacão" - história na qual uma moça da alta sociedade mineira abandona o casamento, se torna meretriz e se apaixona por um padre. Eu tinha 8 anos. Fiquei surpresa do quanto se tornaram conservadores. Com o avançar da idade parece que retornamos às referências da infância: como se fosse resposta gravada à sensação de desamparo.

Certa vez, minha tia materna mais jovem, a Mérida, disse sobre mim e meus irmãos: esses meninos se criaram sozinhos! Não é verdade, desde que nascemos, tudo nos cria, família, animais, tecnologia...e tudo gasta energia. Quando nossa casa estava alagada, nos abrigávamos na casa de minha avó materna. Láiza. Eu não via TV na casa da minha avó Láiza. Não podíamos comer muito nem fazer nada que gastasse energia.

“ESSAS TRAÇAS SÓ VEM TRAZER DESPESAS”

As obrigações das crianças na minha família sempre foram fazer silêncio, arrumar sua própria bagunça e tirar notas boas. A primeira vez que um adulto me pediu ajuda numa tarefa doméstica, eu tinha 5 anos:

— Marina, vá enxugar os pratos.

— Porque eu e não Miguel que já tem 11 anos?

— Por que eu estou mandando você! — disse minha avó Láiza enquanto torcia minha orelha esquerda.

Na casa de vó Láiza eu entendi que o mundo era dos adultos. 

Às vezes eu me esgueirava para escutar as conversas na cozinha, como se fosse a novela da vida real.

— Menino e cachorro, fora! — esse era o bordão predileto daquele ambiente.

Minha avó Láiza e meu avô Toro não demonstravam afeto. Para comigo, Miguel e Murilo, meu irmão mais novo, o sentimento de vó Láiza parecia algo como compaixão. A primeira atividade que ela me ensinou foi rezar. 

Sendo grata, poderá diminuir seu sofrimento. 

Láiza gostava muito do meu pai. Contava rindo da vez que, pouco antes de eu nascer, ele vendeu o apartamento em que morava com minha mãe e com o Miguel para comprar um Chevrolet Opala, o top de linha.

— E A GENTE VAI MORAR ONDE? NO CARRO? — representava minha mãe gritando com meu pai.

A minha mãe tem mania de roer as unhas. Tanto que seus dedos tem um formato estranho, como se de tão pouca unha, as pontas fossem repuxadas para trás deixando uma linha de três milímetros de queratina entre a extremidade das mãos e o mundo. Finíssima camada. 

Tínhamos também mania de roer as unhas e o meu avô Toro batizava de inchaço as costas das nossas mãos com um tapa de dois dedos bem grossos. Eu e meus irmãos temos a mesma textura áspera nas mãos, mas não as usamos com violência. Ele também detestava a mania de andarmos descalços, meus pés ficavam marcados dos pisões do chinelo Rider dele, tinha uma textura antiderrapante profunda e o material era uma borracha bem resistente. Doía. 

Meu avô Toro tinha uma brincadeira de suspender eu e meus irmãos pela cabeça, eu gostava dessa brincadeira, ou pelo “bucho”, aí eu não deixava, saía correndo. 

Miguel me disse uma vez que uma rede de violência se repete como um ciclo até que alguém o interrompa. Ou apenas saia correndo. Eu era uma criança quieta, costumava ser obediente e até amorosa - a minha face de ira e violência se voltava contra o Murilo, meu irmãozinho 1 ano e 11 meses mais novo. Ele me seguia o dia inteiro, tudo ele queria fazer junto comigo e eu precisava ficar sozinha, ele era um imitão. 

Eu também seguia e imitava como uma sombra as personagens da TV. Mas eu mesma não queria ter uma cópia.   

Murilo deve ter começado a falar com uns 3 anos. Quando tinha uns dois, lembro que o chamei para o quarto mais afastado da sala e disse que íamos refazer uma cena. Expliquei tudo direitinho. Vesti ele de menina e comecei a repetir energicamente o texto, simulando berros, impropérios, contra “ela”. Era uma cena em que duas mulheres brigavam. Tinha visto aquilo numa novela. O guri não sabia falar e explodiu o maior choro:

— É de mentirinha! É a cena! Eu te expliquei! Não precisa chorar! Não grita!

Tarde demais.

Eu, diretora e atriz, fui interrompida por uma polícia truculenta; a minha mãe não deixou eu explicar e já chegou batendo. Seja família, seja a polícia, essas instituições estruturadas em hierarquias, tendem a oprimir e reprimir uns tipos específicos. 

Hoje eu entendo. São muitas coisas que transformam o diálogo em repetidos movimentos com cintos, vassouras, sandálias ou sem instrumentos, com as mãos abertas ou fechadas. A casa alaga, três filhos, cachorros, o marido narcólatra e possivelmente bipolar. Filha de mãe manipuladora e pai bruto, a primogênita e irmã de muitos, frustrada profissionalmente…

Um dia o meu pai chegou muito bêbado. Na minha leitura, ele tentou abraçar a minha mãe e então ela o empurrou. Cerca de um metro e noventa de altura despencou e partiu a cabeça. Eu vi sangue.

— Olha o que você fez com ele!

Já tinha visto sangue antes. Não só na TV, sabia que doía. Disseram para eu não mexer na lâmina de barbear e precisei ficar algum tempo escondendo minha dor para que minha mãe não reclamasse. Sobre a pergunta "o que devo fazer?" esconder as dores tem sido o que tenho feito melhor.

Voltando ao Murilo, hoje eu entendo porque ele queria ficar próximo de mim. Eu era a pessoa favorita dele. Só soube o que era isso aos 11 anos, antes disso eram objetos “minhas pessoas” favoritas. A TV já disse. Amava dois prendedores de cabelo em forma de borboleta. Tinha um chinelo de borracha preta com tiras acolchoadas roxas. Tinha um vestido vermelho com coração de babado branco no tórax. Tinha a Manuele, uma boneca de tranças em maria chiquinha com vestido e chapeuzinho em touca, tecido lilás e floral. E tinha o Marcelo, um macaco branco com lacinho dourado no pescoço, meu preferido: quando meu avô Toro me deu, tinha uma banana presa em suas mãos; tratei de descosturar, o coitado não poderia dormir na cama segurando comida. 

Apesar do Marcelo ser meu preferido, todos tinham tratamento igual, dormiam comigo e recebiam beijo de boa noite. Prática que vi entre humanos na TV. Pensando bem, talvez gostasse dos objetos como extensão de quem me dera, gostava das pessoas ou pelo menos queria que me vissem e cuidassem de mim.

Por ter sido criada com a TV, desenvolvi uma sensação constante de estar sendo observada. Quando eu tinha 4 anos, lembro de acordar no meio da madrugada sentindo o meu travesseiro ser puxado para fora da cama — apesar de ser familiarizada com filmes de terror, não senti medo. Pensei que o diretor gostaria de ver a minha reação diante do inexplicável. Uma mão estranha surgiria? E fiquei parada apenas olhando o espaço entre o chão e o travesseiro. 

Minha atenção costumava transitar entre uma coisa e outra. Acredito que ainda é assim, com a diferença de existirem mais elementos e discussões sobre cada sistema. No ano de 1994, fui com meu pai encontrar uma tia e uma prima de idade próxima. Eu achava a Julia bem bonita. Quando nos encontramos, olhei para cima e os dois sorrisos diziam que era bom nos vermos pois nos gostávamos muito. Para cada ideia deve haver uma representação. No mesmo momento, como um comando, eu abracei a Julia forte para ilustrar aquelas palavras. E como um bom cachorrinho, recebi minha parte de elogio da beleza. Esse foi o mesmo ano que estava obcecada à espera de surgir uma mão, ou um corpo, que justificasse o deslize do travesseiro. Esse personagem nunca entrou em cena.

Então é isto: não é apenas ver o espaço entre uma coisa e outra, é preciso agir. E foi ali, aos 4 anos, que iniciou o meu tormento: o que devo fazer?

O Miguel dizia que até pouco depois dessa idade eu ainda era amorosa. Eu sempre recebia elogios após beijos e abraços. Reforço positivo. Mas bastava uma referência contrária para eu mudar de direção. E então me pergunto: tendo tão poucas lembranças do meu pai, como pode ele ter sido a figura mais presente em meus conflitos? 

Certa vez estava apenas eu e meu pai na cozinha em nossa casa que alagava. Mas era como se alugada. Tratava-se de uma espécie de consórcio de casas chamado BNH. Pagava-se mensalidade, se não pagasse durante um tempo, a casa ia para leilão ou fazia-se um acordo individual, transferindo um montante e tendo o compromisso de continuar pagando as mensalidades. Esse acordo individual foi o que minha mãe fez.

Lembro da iluminação baixa, como se sempre fosse dia e estivesse nublado. Lembro do plástico na mesa cobrindo o tecido que forrava a mesa, era comum isso. E lembro das moscas. Muitas moscas e mesmo se apenas duas, já eram muitas. Eu detesto moscas. O meu pai perguntou:

— Duvida que eu mate uma mosca no ar?

Pensei: 

“Impossível, são muito rápidas”. 

Duvidei.

Ele, com um movimento, fez a mosca desaparecer. Tomei um susto. 

Matou!

Matou uma mosca por uma demonstração. 

Abriu a mão e a mosca voou.

— Pituca, para pegar uma mosca você tem que ser mais esperta que ela. Há duas formas para facilitar pegá-la: uma é quando está distraída com outra mosca e outra é quando você se adianta em seu caminho, tentando prever o lado que vai, e fecha as mãos nessa direção.

Cresci com isso em mente. Não posso me distrair e nem seguir o caminho previsível. E devo reconhecer o momento certo de agir. A sensação que ficou é de que ninguém deve morrer por uma demonstração de poder, mesmo o seu próprio. Essa é a hora de escrever. 

No meu caminho busquei aguçar o olhar; há um tempo matuto sobre as coisas que acontecem no país e no mundo. Desviei do que esperavam de mim. A minha família esperava que eu fizesse medicina e casasse com um homem rico. Rejeitei o status da medicina e o contrato econômico que é o casamento. Saúde, profissão e relação afetiva são questões que se encontram na área que escolhi estudar, a área de humanas. Um fracasso na minha família se não é do Direito.

Meus pais se separaram quando eu tinha 5 anos. No mesmo ano, minha mãe foi passar uma temporada na Suíça, lugar onde um estudante muçulmano que trabalhava 4 horas por dia “se encantou” por ela. Lá minha mãe trabalhou no Mènage Nettoyage, uma terceirizada de faxina. No Brasil, meu pai não aceitava a separação e a perseguia nos lugares. Na despedida, no aeroporto, minha disse: 

“Não quero ver ninguém chorando e se o pai de vocês aparecer e chamar vocês para irem a algum lugar, não é para ir”. Hoje isso seria chamado de alienação parental. E meu irmão Miguel desatou a chorar. Acho que ele não entendia bem os comandos, ou sempre teve mais personalidade.

Moramos com vó Láiza um tempo e foi quando estabeleci um laço mais próximo com tia Margarida e tio Tuthy, Margarida e Thuy, como eu os chamava. Eles têm uma história legal. Margarida tinha uma amiga rica que a chamou para ir a Porto Seguro. Nas prévias da viagem, Margarida foi numa cartomante de renome fazer um jogo sobre amor. Isso lá em 1988. A cartomante disse que ela ia conhecer um homem do mar, o amor da sua vida, sua alma gêmea. Chegando em Porto Seguro, havia muitos pescadores tradicionais, o que logo lhe preocupou pois não queria um “pé-rapado”. Foi assim que conheceu tio Thuy, que largou o curso de administração para fazer medicina. Na família do meu pai havia muitos médicos, mas foi por causa da família de Thuy que queriam que todas as crianças fizessem medicina.

Tio Thuty detesta cebola no prato, a textura o incomoda. Gosto desse fato. Quando tinha uns 5 anos, minha avó queria me obrigar a tomar sopa. Eu não gosto de restos. Hoje, os restos me lembram um tempo de guerra, de violência e de privação. 

— Só tomo sopa se tio Thuy comer cebola.

Eu adorava as visitas de sábado à casa de vó Delilah e vô Paiva. Não são avós de sangue, são os pais de tio Thuy. São parentes, mas não estão se tornando nada mais além de lembranças. Descansem em paz. Vó Delilah fazia um cafuné delicioso, dizia que estava catando piolho, e estalava a ponta das unhas no couro cabeludo. Adorava esse contato que eu não tinha em minha família de sangue. Vô Paiva era leve, tinha um humor ácido, cheio de causos e piadas, andava arrastando os palitinhos acoplados pela bacia à uma azeitona, sua barriga — e ele sempre fazia maior festa ao me ver. Numa das visitas, casa cheia, estava até a tia Adelina com a qual eu compartilhava o amor por filmes de terror, eu queria dar beijos em todo mundo ao chegar… como fazia com meus brinquedos antes de dormir - tinha meus prediletos mas o tratamento precisa ser igual, e então foi que:

— Essa menina é muito beijoqueira. — Margarida me redirecionou a evitar muito contato. 

Os anos foram passando e eu fui tendo dificuldade de adequar os personagens em casa. Nunca fui boa atriz para segurar um papel sozinha ou foi a representação familiar que foi se aprofundando. Era um azul-marinho, entre a superfície iluminada dos papéis na TV e as profundezas abissais reprimidas. 

Tons azulados me lembram a mãe do meu pai, uma mulher fria e distante, vó Glória. Tinha o cabelo lilás, como quem erra na matização, e pintava as unhas da mesma cor. A pele dela era muito, muito branca. Minha avó Glória foi quem deu o primeiro brinquedo que gostei - uma boneca Barbie que no sol mudava a cor do cabelo… 

A casa da Glória me deixava muito confusa: ela era surda por isso meu pai e minha tia Nina estavam habituados a falar bem alto. Além disso, meu primo Jonas, autista de nível 3 de suporte, repetia um mantra mais ou menos assim:

— ÃÃÃÃÃÑ, ÃÃÃÃÃAÑ, ÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃN…

— HEIN? — repetia minha avó Glória a cada um que olhasse para ela.

— AU! AU! AU! AU! AU! — tinha o cachorrinho de suporte emocional do meu primo.

Se não houvesse preguiça para falar, certamente, o bordão de exclusão da minha família materna seria nesse fluxo: menino, portadores de deficiências e cachorro, fora!

Eu estava nas categorias. O que sou?



Cada dia um pouco

 1

Não sei porque reluto em falar assim. Como agora transposta. Sempre crio uma ar confuso, uma nebulosa, como se realmente protestasse contra o entendimento. 

Mas o que tenho a dizer?

Os dilemas são tão comuns que, às vezes, ouço em meus pensamentos uma voz que nem é minha. Um filme, um romance, uma conhecida, sei lá...algo qualquer que tenha o mesmo enredo. 

Vida é um compilado de memórias que muda seus significados a cada experiência. 

Uma coisa permanece e isso sou eu puro. Antes da voz. 

As imagens.

Desde pequena sou vidrada em observar detalhes e contrastes. Um vulto avermelhado sobre uma tela preta marca um movimento, uma iluminação caminhante. 

Quase sendo obscura outra vez. 

2

Somos animais, fato, com instintos, odores, sentimentos, ações, criatividade...animais condicionados pelo que nos toca, pelo que nos rodeia e pelo que podemos imaginar; e essa relação, as relações com tudo que toca, desperta sentimentos sobre as coisas. Explicamos para outras pessoas o que nos causa os sentimentos e um processo por aproximação do que se é, ou se gostaria de ser, gera uma identificação que precisava acontecer para haver comunicação.  Então, tudo que sabemos sobre sentimentos são ficções de ficções.

A menos, é óbvio, que a gente não apenas reproduza. Não acho que o behaviorismo seria bom caminho de análise. A observação do comportamento não dá conta das contradições próprias no sujeito, tudo que falarmos sobre isso, sem entendermos o outro em suas palavras, é nossa projeção pura.

Às vezes, as pessoas vivem bem trocando projeções puras e se julgando a partir das ações: as brigas cíclicas por motivos aparentemente bobos.  

A questão é: inevitável porquê?

Que projeções são essas, cíclicas, fortes, de difícil superação, que nos remetem a uma relação anterior, uma experiência?

Eu acredito que experiência, ou o hábito, pode mudar de significado, e o comportamento observável não captura esse movimento. 

3

O que me preocupa não é a psicologia se tornar muito valorizada. Mas é uma consequência disso: valores culturais em torno de questão de saúde aumenta o poder médico; e a ideia da cura e do padrão tem seus fanáticos. Tenho que reler O alienista de Assis. Infelizmente, parece que toda psicologia tem algum aspecto do behaviorismo.

4

Havia um castelo. Não se pode dizer que fora criado pelas pedras de variados tamanhos e ligas retirados de outros lugares. Mesmo as daninhas que insistem em crescer mesmo sem convite, estão por um motivo. O castelo, então, também se cria. Como em memória do espaço, do seu terreno. O vento não pode apagar essa potência; em verdade, o vento faz parte dessa memória. É por essa memória, ou pela busca de recuperá-la, que se faz agentes. Agentes responsáveis pela prisão daquilo que ameaça o castelo, agentes responsáveis pela organização das funções, agentes que precisam cultivar as gramíneas para manter tudo vivo. 

Posso apresentar a estrutura aparente desse castelo, descrever ao máximo suas características; mas a medida que um invasor interrogue sobre a memória potente, as metáforas científicas ou poéticas irão brotar em sua defesa. Defesa da fonte do inexplicável. Que é isso se não a fonte da fé? 

Mais que isso, do intangível.

A defesa age quando algo avança e quer construir sobre, também acima. 

Chama-se resistência.

Apesar de gostar dessa abordagem, e não gostar da ideia de que o castelo resiste, não quero transferi-lo. É onde está propriamente a vida. Dar a alguém a fonte não significa permitir um castelo melhor, mas retirar do mistério o poder e pousá-lo em um paradigma que foge do controle: está com outro a narrativa do que acontece e do que é responsável pela cegueira.

5

Cegueira. Ausência ou excesso de luz? Aquele eu puro, antes da voz, é intangível porque a mémória potente do espaço é mística ou porque a pluralidade de abordagem sobre isso é tamanha que é impossível o denominador comum?



 











Provocações

Mulher não é sujeito político, feminista o é. 

Uma pessoa vista como uma mulher é menos ignorada quando fala do lugar de mulher; em agravo, na autonegação do lugar ou na transgeneridade (afirmação de outro lugar), sua estruturação é subalternizada diante dos assuntos exclusivos dos homens ou patologizada pelas teorias desses mesmos. Esse processo de desautorização de sujeitos permanece, e é estendível a outros corpos, como um silenciamento e eliminação sistemática de qualquer um que revele desejo em superar sua condição de opressão e exploração social.

Que é a mulher senão um ser em combate perene nas brechas do poder da filosofia ocidental? Homens são feitos em oposição a esta figura historicamente posta como governada pelo coração, pela sensibilidade, pela beleza. Uma espécie de desdobramento na psiqué que vem desde sociedades de coletores e caçadores. Salto interpretativo que confinou sua função em resguardar o cuidado como um sintoma de seu aprisionamento. 

A violência do ser fêmea só é admitida quando o cuidado com seus filhos é ameaçado. A mãe raivosa em defesa daquilo que daria a vida por, que mataria por, que se entregaria de corpo e alma. Creio que sempre estivemos na posição de raiva justificável - quando as tidas por mulheres não foram elas mesmas submetidas à violência e à escravização durante conflitos armados de conquista, perderam seus filhos em guerras de dominação; escravizaram e continuam matando os filhos daquelas que, por justiça, por superação da subalternidade, deve identificar pontos estratégicos de articulação para luta política. Não a nada que congregue mais que a dor histórica criada pela masculinidade hegemônica - isso erigido da violência e do militarismo.

Dia desses conversava com pessoas de filosofia sobre as novas categorias que definem homens na sociedade: Redpill, Bluepill, Alpha, Beta, Ômega, Sigma e Incel. Depois de me explicarem cada um desses conceitos perguntei se mulheres poderiam ser Sigma. Sigma é um tipo introvertido que não segue padrões sociais e possui boa autoestima. A resposta foi negativa. As pessoas lidas como mulheres só podem desejar e apoiar homens nas suas categorias. Conversando com uma amiga sobre isso, e pondo de que nós constituídas mulheres não possuímos nossas categorias, fui surpreendida também com a negação: nossas categorias reconhecidas são da política - feministas liberais, feminista materialista, feminista negra, radfem, anarcofem, transfeminista, etc. ou, pelo menos, é interessante que assim o seja. 

É interessante pensar que as categorias hoje debatidas pelos homens envolvam o valor dos corpos num mercado (se és homem e não debate masculinidades, os silêncios são apropriados na reprodução de valores: muito já afirmamos que o apagamento do homem e do branco os põem como categoria supostamente neutra que arrasta o valor social porque já o concentra e por se colocar acima dos conflitos) e que as categorias reconhecidas de mulheres remetam às formas de superar, ou reforçar no caso das liberais, as contradições entre valor de pessoa/humano, valor de uso e valor de troca. Considerando que nossas categorias de identificação são mais antigas que as citadas aqui dos homens, talvez essa seja a forma que esses seres encontraram de se opor, pela materialidade do desejo, às práxis que reorganizam os desejos das mulheres e orientam sua atitude pedagógica numa relação afetiva-sexual.

Por mulheres terem sido aprisionadas na tarefa do cuidado dos filhos, seu desdobramento é o artesanato de homens. É irônico que muita gente ache bonita a declaração de amor à mulher “eu sinto que sou um homem melhor por você, e você me desafia a ser sempre melhor”. Essa declaração é justamente o sintoma da tarefa de modelagem espiritual que a mulher, como mãe ou analista ou terapêuta, opera no homem. Mas vendo por esse sentido, homens e mulheres são pares dialéticos fluidos tanto em uma relação quanto socialmente: existe em relações, supostamente, não heterossexuais também. Há seres lidos como homens que encampam na tarefa do cuidado e modelagem. Seriam homens femininos por isso? seriam manipuladores e disciplinares por conta da sua autoridade patriarcal? Ou seria melhor desvincular o trabalho compulsório de cuidado da identificação de gênero para pensarmos as formas?

Não devia levar essas categorias novas inventadas em consideração, mas há ausência de conceitos sérios produzidos por homens para tratar dos conflitos de valores e defendo que o senso comum precisa se transformar num juízo comum, mais razoável e de compreensão mútua. Daí, para ser justa e ver o que pseudociência difundia, busquei na internet tipos de comportamento, personalidade e caráter de mulheres. Na maior parte das nomenclaturas tem gradações que vão desde uma dependência - do pai, do prazer, do conhecimento, do relacionamento, da fofoca, da aprovação da sogra, passando pelas repetições - da tarefa do cuidado, das oscilações do humor, da preocupação com a aparência, até a mais completa superfialidade da beleza vazia de conteúdo. Há nomenclaturas que avaliam também quanto ao comportamento sexual. O que essas gradações bem vendidas podem nos informar? A mulher é um ser que necessita de um preenchimento a partir do outro e a forma que se dá esse preenchimento é qualificado como interessante ou não para um relacionamento heterossexual.

O problema dessa questão é o reforço às essências de gênero que, em última instância aprisiona o homem em categorias que se referem à manifestação material do desejo por um lado e, por outro lado, impede que a mulher seja capaz de definir-se como categoria através de um pressuposto suficientemente largo e dinâmico para abarcar toda a pluralidade. Na ausência desse pressuposto, as práticas em relação ao outro dominante que são qualificadas. Não existir a mulher, e sim mulheres, barra o sujeito de sua articulação e nos encerra numa disputa constante em que cada linha política feminista precisa se tornar a protagonista da mudança social. O pensamento tradicional sai ganhando porque a unidade é, inclusive, com muitos homens e instituições.

Homens são seres dominantes na sociedade e por sua afinidade, ou por manutenção de interesses, no mundo material sua identidade está posta por mais que haja questionamentos - o homem já é sujeito, já age para si e mantém a materialidade a seu favor. Um sintoma da falta do pressuposto alargado para identificação do ser subalternizado atrapalha a formação de sujeito para si, e empurra para a reprodução dos conflitos fragmentários no mundo material. E ao invés do fortalecimento das lutas para superação do quadro de opressão e exploração, o que reina é o individualismo, a particularidade de casos e a competição por acumulação de valores.

O que faz uma mulher ser uma mulher? Quando eu era criança me disseram que eu era uma menina, e como tinha chegado a pouco tempo, aceitei. Na adolescência, percebi que isso de ser mulher significava um monte de estereótipos que não me enquadrava e que mulher nenhuma se enquadra se parar para pensar antes de reproduzir. A reprodução pode até estar bem organizada no discurso da mulher, mas num ponto e outro, num caso específico, numa tomada de posição com relação ao próprio sofrimento ou de outra pessoa, somos surpreendidas com a dúvida: como vou defender ou acusar isso se minha voz não é plena e existo apenas de suporte para o outro, o homem, se fazer?

Apesar de considerar que modelos tradicionais de família são a reprodução compulsória do modelo hétero, sei que há negociações que satisfazem alguma estabilidade em nome de um bem considerado maior que o conflito; porém, se as mulheres inseridas nessa posição se atentarem para as categorias que os homens inventam para meter-se, ou analisarem apenas se suas falas e práticas se encaixam em alguma das categorias, verá que em todas elas mulheres são objetos e não sujeitos - e quando são sujeitos são de desmoralização. Apenas no divórcio, quando há justificativa para o término, que a reflexão arrebata a evidência que nas negociações saímos perdendo: porque não há uma estrutura social valorizando as que se puseram como sujeitos.

É sintomático que mulheres sejam menos representadas em espaços de poder e que sua alternativa para serem bem sucedidas seja utilizar poderes do corpo. Vejo isso muito na arte, o lugar que incorpora pessoas dissidentes no mundo material que opera sobre a lógica da padronização de procedimentos que visam o ganho. Corpos subalternizados, que sequer conseguem entrar em acordo sobre qual é o seu pressuposto fundador e que, eventualmente, se opõem à lógica do investimento na acumulação de valores estão (espero que não) fadados a reforçar a figura que estruturalmente concentra valor social.

Quantas pessoas não fetichizam o homem branco, de corpo padronizado pela academia, rico? Os atores que fizeram Thor e Super-homem, por exemplo? Por mais que se negue em si, é observável tal fetichização. E se o homem não é padrão de beleza como esses atores, o que vale é se aproximar: com dinheiro e plásticas qualquer um fica “razoável”. Também o valor sexual da mulher é medido pela aproximação de um padrão criado e reforçado. É em volta desse padrão que gira o dinheiro, esse fetiche que movimenta a vida dos seres com afinidade à questão material - trata-se da manutenção de interesses em posição de poder. Ainda hoje, o casamento é o mecanismo social que é tanto uma estrutura de apropriação e distribuição de bens quanto relações intersubjetivas de negociação e partilha. Mesmo os que se recusam a reproduzir a instituição do casamento, estão sujeitos à crítica das preferências sexuais - existem pessoas que inspiram respeito e as que são fetichizadas, existem relações mais duradouras e as passageiras - tudo isso justificado em preferências supostamente pessoais e não na constituição simbólica de melhores formas de corpos e comportamento.

Falta tratar de uma categoria inventada atualmente que mulheres lidas mulheres podem se embrenhar: incel. A categoria incel significa fazer parte de uma subcultura que foi marginalizada do campo do desejo. É o destino das mulheres tradicionais quando ficarem idosas e seus homens acusarem que seu valor sexual de mercado caiu demais. É o lugar de muitas pessoas mulheres e homens de todas as etnias e trans e não-binários e deficientes e neurodivergentes que seguer valorizam os padrões ditados e hegemonizados do desejo. Essa é a única categoria que podemos politizar numa crítica ao processo compulsório tanto da heterossexualidade, porque questiona as posições estanques de dominantes e subalternizados, quanto os próprios padrões que paletam em cores e formatos os valores sexuais, afinal há pessoas que nem são consideradas sujeitos, há não-sujeitos que são apenas para uso, há objetos que são apenas para serem consumidos em trocas.

Os não-sujeito são pessoas que estão na subcategoria do valor de uso, serve apenas para a personalidade dominante se montar simbólica e financeiramente: como a figura da mulher tradicionalizada. Acredito que os incel estamos na subcategoria, majoritariamente, de nem sujeito nem objeto. O “quem é você, nem é gente, se enxerga” da marginalização. Alguns e às vezes somos os objetos, neurodivergentes ou pretas ou deficientes ou gordas, as pessoas fetichizadas e descartadas. Todas as pessoas negociam suas posições: caso e quanto mais se aproximem do padrão de beleza e seja abastado, possuem maior poder nessa negociação.

A forma como direcionamos nossos desejos é também política. 

Na conversa com amigos de filosofia, depois de um longo debate, eu e um brother nos consideramos não-binários agnósticos incel. Quando perguntamos ao outro brother, que não tinha participado tanto da discussão, como ele se identificaria nas categorias atuais, ele respondeu que era homem do gênero homem. Como ele ouviu toda discussão e tem um tom jocoso sempre sobre as coisas, não sabíamos se falava sério ou estava fazendo uma provocação filosófica para testar nossos ânimos. Então, que é ser homem do gênero homem?

O gênero faz o sexo e não o sexo define o gênero. Nesse sentido, filosoficamente tratando, apesar da confusão semântica, ser homem é não ser animal, um critério de moralização. É, por aproximação etimológica, ser humano. Ele seria um humano que se fez homem. Nesse caso, eu seria um homem que se fez mulher. Porque diabos eu me faria mulher se na estrutura social é sexo frágil? é o sexo com tantas exigências comportamentais e de cuidado e de responsabilidade com o outro, por quê? Senão por confiança no que me disseram criança, senão por amizade. Vale se manter como não-sujeito, como objeto, como mercadoria por que motivo? Infelizmente, isso nem depende da autoidentificação. É inscrição na estrutura social parcialmente arbitrária que congrega desejos reprodutivos de valores e manutenção do poder patriarcal.

Um objeto é capaz de negação total por um Outro. É a questão limítrofe da sanidade em que algo desperta a doação completa por um outro. Talvez, o que precisamos é que o gênero homem torne-se mulher, quiçá quando descobrir pelo Que é capaz de se negar todos os dias na negociação e sacrificar seu ego mais estável constituído a partir dos valores sob a lógica do capitalismo. A masculinidade hegemônica é implacável apenas na afirmação de si, que não apenas nega o outro, também o elimina como ameaça. Homens do gênero homem, machos masculinos, são capazes de sacrificar-se por justiça social?



Aos racionais desde criança, qualquer coisa polêmica

 

Já fui uma pessoa das 10, das 5 e, agora, das 3. Significa "não importa a hora de dormir, o acordar é automático". Certa vez, quando saí de casa apenas para passear, lembrei de alguém falando que em toda cidade há, pelo menos, uma pessoa que se perdeu no papel e fica conhecido pelas repetições. 

Lembrei de comentários temerosos sobre o Jaime Figura, um artista de Salvador que se vestia de sucata e circulava pela cidade em silêncio. Sua figura me remetia a uma bela decadência e não me admira que o sentimento mais comum compartilhado tenha sido o medo: levar uma crítica ao seu limite, como vestir uma lataria tal qual trabalhadores entram em máquinas de transporte, tem um quê de repetição desprazerosa. Já ouvi a história de uma mulher "louca" que se arrumava de forma cuidadosa - impecável, e saía pelas ruas sem propósito. Talvez fosse uma artista também, pondo em relevo o que se espera das mulheres todos os dias: exclusivamente, enfeitar a rua. 

Há formas cotidianas de repetição, como meus horários sistemáticos e minha compulsão por escovar os dentes, imediatamente, após o alimento. Há formas institucionalizadas de repetição, como o trabalho. Há formas biográficas e históricas de repetição geradoras de ladainhas, fato é que todos temos ladainhas ou estamos inseridos numa compulsoriamente. 

Dia desses estava, em defesa do comportamento de outra pessoa, especulando que somos não o que pensamos ser, mas aquilo que é reconhecido como nosso "defeito". A "imperfeição" da personalidade, como pode-se falar em egoísmo, ganância, teimosia, soberba, violência etecetera, é um automatismo: uma resposta que se repete a um contexto cuja mediação é extremamente custosa para o indivíduo. E duvido de quem me diz que não existe isso de defeito, é assim que relacionamentos acabam: uma repetição parece insuperável de um lado e se faz insuportável para o outro.

Ontem mesmo encontrei uma pessoa que falou, repetidamente, o quão era interessante sua biografia. Com essas palavras. Não morava com a mãe, morava com o pai e sentia que este o havia abandonado porque ele era muito racional desde criança - só tivera adultez emergente. Eu não estava interessada e a cada história de sua infância ou adolescência ou adultez emergente que influenciou suas escolhas teóricas e políticas me entediava mais. Muita gente sabe que gostaria de estudar o tédio estético que me acomete há alguns anos. Eu tentei algumas vezes mandar sinais ao moço que ele estava monopolizando a conversa falando de si próprio. Despertei minha analista, que tinha levado ao bar para dopar, a propósito de fazê-lo perceber que sua demanda estava muito grande. 

Depois de muitos sinais e esgotadas as possibilidades pedagógicas em termos de cuidado e ética na intervenção, e meu limite é bem alto, descambo para a crítica. Confesso o meu automatismo do espírito: quando eu perco a paciência, sou uma crítica feroz. Soberba é tolerável, afinal, se não nos valorizarmos, quem irá? Mas arrogância, masculina principalmente, me enerva. Mudei o tom do cuidado para o constrangimento. Inútil. Tipos muito egóicos da "contemporaneidade" não se constrangem - lacram. Isso porque o juízo do "mandar bem" é pessoal ou, no máximo, tribal. 

Mas o propósito desse escrito é pensar sobre o automatismo.

O humano é mutável, mas desconfio da plasticidade individual. Há manejos e manobras do indivíduo para lidar com suas repetições, mas está lá ainda não superado, como um piquete para baliza. É na cadência dessas metáforas que prossigo: o volante está ao alcance das mãos, girando em sentidos e alterando a direção dos deslocamentos, e tudo que eu queria era que os piquetes fossem os das greves. Aos racionais desde criança, mais crítica social e menos individualismo.






Mirante ao Norte, portas ao Sul


Estamos apinhados numa sala. A maioria de nós deseja ver de perto o expoente com fama xamânica, a quem pertence um olhar cego de radar. 
 
"Boa noite. Discutiremos a passagem bíblica ou a diferença das palavras nas viagens?"

Sua voz consegue ecoar numa lotação.

As maçãs do rosto queimam e folheio as propostas que já havia devorado completamente: a das palavras era mais descritiva, já a passagem bíblica me pareceu obscura e incompreensível.
 
A escolha é feita na prática. Assim, como se cai de maduro, um e outra falam de suas viagens. Falam do quanto uma situação e um lugar no mundo contextualiza significados - até mesmo os de suas presenças.

Eu estou entediada. O texto sobre a aventura das palavras é gigantesco, uma jaca pesada, e bagos, é sobre o que se quer falar. Deguste. Eu nunca comi dessa fruta. Por aqui, só ração.

Alguém conta que seu irmão havia conhecido alguns países africanos: considerado rei em alguns, podia tudo. Noutros, era obrigado a respeitar as mulheres. Não sei se foi isso, mas entendi assim.

Fez calor. 
A sala começou a se reorganizar.
Saí da frente e fui ao fundo. Foi a primeira vez que, por escolha, me afastei do maestro do dia. 

O xamã propôs:

"Calor intenso. Vamos nos dividir em vários lugares, vou conseguir autorização para utilizar outra sala. Respeitem o intervalo. Até mais".

Não veríamos mais o palavrório de experiências: quando as moças comentam cotidianos e homens, conquistas.

Devo respeitar o intervalo de tempo ou de espaço?

Gosto de atear fogo em fatos, confundo e emudeço. Desperto medo no meio mas do território nunca saí.

Para onde vou?

Vi garotos pela fresta da porta reunidos por palavra entorpecente. Vou atrás. Quando consigo me aproximar, já era hora ritualística. Sorrateiros, os perco de vista.

Perambulo com dificuldade pelo corredor e não pouso em nada e em ninguém. Os velhos me ironizam. As senhoras querem me ajeitar. Aqui o ambiente é controlado e previsível: mirante ao Norte, portas ao Sul.
 
Sigo em direção ao peitoril de vidro ao Norte. O ar fresco daquele lugar me lembrou o tempo de criança quando deixava a água corrente me esvaziar. Infelizmente, estou num aquário.

Eventualmente, me peguei degustando o vidro limite entre as histórias dos nômades e o meu corpo, ao longe, no alto. Vejo tudo assim: de longe e do alto - no entanto, habito os conflitos.

De repente, vejo um colega negro e vermelho pulando um muro de um matagal para uma estradinha. Parece algo proibido: foi em direção ao grupo que me escapou para o ritual estimulante de criatividade. Iam, afinal, aniquilar as conservas que são importadas.

O ritual é nada menos que celebrar mudanças, queimar-se em festa. Afasta-se a conservação mortal do protagonismo: deixa esse desfazer-se em fumaça ou quaisquer aquela bater-se com chifres na parede.

Era para onde eu queria ir, mas permaneci me fundindo com a balaustrada. Um peixe-pedra: sedentária, resistente e mimética.  

O mestre parece ter gostado de ouvir as palavras deslocadas no espaço. Está preenchido. Ao meu lado direito, se encontra com mais pele que roupa. É o meu lugar?

O Xamã avisa já estar tudo arranjado. Toca em meu ombro, fala qualquer outra coisa e senta-se nos degraus atrás de mim. Um feixe de nervos e bomba de sangue pulsam rapidamente - qual é a palavra? Desejo. 

Veio à escada um garoto do tipo malandro falastrão e perguntou se o professor queria ficar bicudo.
   
Ouço reticências, um evidente constrangimento em admitir que sabia o significado da palavra. Ouço a gargalhada do garoto. Perverso. 

Olho para trás e brinco um sorriso em complacência - é meu jeito de me aproximar, oferecer colo. 

Eu não sei o significado da palavra no contexto. O que é ser difícil, pontiagudo, eufórico e alcoólico ao mesmo tempo? Ficaria nobre ou criaria asas? 
 
Saí de perto, não é meu lugar quando não entendo nada.

Vi pessoas no átrio e fui para casa.
A minha casa era cheia de vidros, morava sozinha em dois andares.

Não dormi. Estava sendo sugada em todas as direções.

Quando me dei conta, estava com essa sensação que não passa.

Estou começando a significar? É capaz de permanecer no tempo e espaço sem sentido?

Fui à porta na madrugada. Vi várias pessoas de preto na rua.

É velório ou aniversário? pensei.

Coloquei minha máscara, fui ao encontro delas. Conhecidos não me reconheceram. Falavam que alguém que não fazia sexo estava grávida. Que o diabo fora santificado e que as serpentes diziam o que bem entendiam. 

Eu estava preocupada - tirei a máscara e segui a procissão. Sou uma serpente então?

Abraçaram-me sinceramente.

Que há? perguntei. A Alice, minha amiga, disse-me que não era nada e perguntou:

"o que aconteceu contigo?"

- Eu? estou bem.

Alertaram meus olhos inchados de lágrimas e meus dentes a espumarem.
Não acreditei. Corri para casa. Para o espelho. 

Realmente,

Será que fui envenenada?
Será reação à boca no parapeito de vidro?
Será desejo?
Saí do banheiro abrupta.
Ignota, descabida.
Fleumática melancólica.
Meu rosto estava derretendo.

Agora a sala da palestra deve estar sem gente e sem calor.

E meu peito?
Tem palavra mais deslocada que a polvorosa?  

Eu não pertenço o coração de ninguém, nem posso tratá-lo com pronome possessivo. Broto filhos, como esses, que povoam o mundo. Como um vazio multiplicado: talvez haja um eixo, uma regra exponencial, porém não há centro. São só palavras enfileiradas.

A procissão fora para mim eixo de inflexão.
Sigo meu destino através da porta ao sul. 


 
 





  

Domadores de cavalos

Um senhor quadrado, achatado pela cabeça, passava pela estrada de barro com seu passo pendular. 

Daqui da margem, eu ouvia o vento trazer as histórias da sua má disposição na vida. Centenária, e quantos centos já não conto, sei bem do problema de família. 

A genealogia dos Ferreira tem uma maldição que não é apenas estética.

As gerações que os atravessaram acusavam repugnância à bolsa que portavam pelos umbigos. Trata-se de um resíduo da desconexão com o mundo e com tudo que serviria de alimento um dia. Ainda moço, esse senhor se recostou em meu colo e confissões foram feitas - ouvi sobre seus ímpetos raivosos quando explodia socos e pontapés. Revelou o que havia em sua vesícula umbilical: a imagem de seu pai o chicoteava para domar cavalos.

Essa memória era a forma de um sentimento que pesava bem no meio da sua barriga. Pelo que entendi, a cada momento que se sentia ameaçado, a vesícula liberava em suas veias o sentimento que guardava. 

Enquanto outros rapazes e moças caçoavam da aberração que não se escondia sob as roupas, por dentro, dores rasgavam para que domesticasse animais.

Dentro de mim só há nutrientes, não sei como as imagens se depositam nas bolsas. 

Compreendo que, se a imagem desse senhor remete a violência humana para lidar com animais, animal se torna para lidar com a incomunicação humana. A  incapacidade de linguagem entre cavalos e humanos sempre gerou uma animalização dos sedentos por controle.

O senhor Ferreira, desde que a memória se instalou em seu umbigo, se tornou um cavalo a dar coices.

A lida de tempos atrozes

De repente tudo ficou frio. O que se passava no centro dos ossos talvez entendam os reumáticos crônicos. Não sabia se minha estrela se afastava ou se estava sendo triturada por dentro.

Maria Teresa fora um de meus nomes. Morei numa casa muito pobre. Existia uma escada, ao lado, que dava para um mirante quadrado: cabiam três crianças amontoadas. De lá de cima, eu e meus irmãos víamos a favela inteira e esperávamos por testemunhar seres desnaturais dessa Terra.


No meu aniversário de 11 anos, meu pai me deu de presente uma grande cesta de flores interrompidas. Onze margaridas amarelas e cerca do dobro de rosas vermelhas. Acompanhavam um bilhete: Minha flor está se desabrochando e se tornará uma linda mulher. Acabo de completar 33 anos e coleciono rosas vermelhas secas, cada uma com um amor morto.


Havia um louco na rua da universidade: sempre cumprimentava aquele homem. Certa vez, ele me perguntou se eu gostava de poesia. Estava começando a escrever as minhas próprias. Respondi e o senhor me disse:

- Amor é dor, amizade é salvação, loucura é morte.

Um sujeito de exatas, ele foi. "Que ótimo, Carlos! Escreva tuas poesias, é bom ver separado de nós nossos pensamentos"

Fui para casa e encontrei dois amigos. Conversamos sobre epistemologia e ética anarquista. Éramos algum tipo de antropólogo. O Tomé disse:

- Esse mundo está um caos. Vocês viram a reforma do trabalho? Estamos inertes! Mataram boa parte do espírito de revolta e o que restou foi transformado em individualismo consumista!

O Ariano respondeu:

- O que podemos fazer é apenas nosso trabalho com o máximo de compromisso. Eu, por exemplo, tenho fortalecido a comunidade na criação de uma empresa. Nada como a periferia possuir suas próprias ferramentas para ampliar suas vozes. Eu te convido, Tomé, a estudar comigo a virada linguística.


Trabalhadores intelectuais têm esperanças tolas. Lembrei do Trem da Alma, na década de 70, nos Estados Unidos da América. A performance de negros na dança e na música em números de audiência não chegava a competir com as mortes pelo racismo que se expressa até hoje. E então? Cabe dedicar-se em instituições que palhetam de tons claros as fileiras do trabalho qualificado? Os "outros" não estão entregues às moscas, nossa própria sorte? É preciso assumir que a apropriação da linguagem é desigual e excludente, não importa se massageamos nosso ego sendo úteis, torcendo, a longo prazo. Gritos de choro já urgem. Esqueçam a terceira via! É uma revolução estrutural que precisa ser construída.

Quem é mais delirante?

Ouvi um canto gregoriano exclusivo de mulheres. E minha mão pesou para escrever. Elas diziam:

“Minha filha, sinta
o morno das palavras
se suas vistas são tomadas
pelo vermelho do fogo,
O sol ilumina
também queima
Cuidado nesse jogo
O que deseja
pode ser pior no tempo
Num outro”

Rosa era meu codinome. Eu estava numa sala escura. Meus torturadores queriam alguma informação. Estava tão possuída de agonia e lástima que não ouvia perguntas. Graças a Deus, a dor superava as memórias e a capacidade de falar. Não me perdoaria se delatasse alguém vivo num plano, qualquer um deles. O companheiro Carlos estava na cadeira ao lado. E eu entendi como havia enlouquecido. Só podemos viver em uma situação. Na tortura, a peleja é tamanha que atravessa tempo e espaço. Desenrola aos baques o desespero, degrau por degrau, em nossas simultâneas vidas. Passado, presente e futuro se encontram num único ponto: dor profunda. Leva ao delírio, só tolerável se menor que o amor - só superado pelo carinho da amizade. Em tortura, um e outra, fortalecem a vontade de morte.

As promessas de algozes são "você fala, eu te libero". E deixei que me matassem. Nada menos explicável pelo individualismo utilitarista que o suicídio altruísta de um ateu. Não digo que não acredito em deuses. Tive provas físicas de suas capacidades. Digo que não esperava o paraíso ou nirvanas. Da cultura que nos colonizou, e que ainda mata meus ancestrais, a cristã, aceitei o inferno eterno. O fogo de alerta da cantoria gregoriana. Acham que o que nos afirma é vontade de viver? Pois, inteiramente, não. É a negação total pela necessidade dos tantos outros.

Acordei no meu julgamento. Esse planeta era lugar em que ninguém sabia que estava morto e todo mundo tinha medo de morrer. As instituições eram paredes cuja decomposição servia para distrair nossa lida que atravessa épocas infinitas. Ao me deparar com essa realidade, abandonei o Teatro do Julgamento e fui ao mirante ver o mar. Os deuses diziam que eu não podia sair da representação. Havia regras. Pesaram a gravidade sobre minha cabeça. Esfriaram o clima até que me tremesse por completo em pleno sol tropical. Estava sendo punida por não aceitar nenhuma roupagem de realidade que permite subjugação a seres vivos. Eu ainda vivo acreditando na justiça e liberdade universais - pelas quais, eu mesma, já morri.

Lianda