Âmbar ao vento

"As pessoas gostam de histórias bonitas, finais felizes. Quero que sintam a dor e o ódio que moram dentro de mim”.

A vida desta moça foi muito instável: mudanças, injustiças, violências. O mundo inteiro era um caldeirão e o metal, a matéria-prima do utensílio, era sua própria pele.

Eu ouvia atentamente as imagens que criava de seus sentimentos.

A primeira sensação de desprendimento foi quando perdeu o pai para a morte. Jovem, despencou na cama de olhos bem abertos. A sensação de cair permaneceu por longo tempo enquanto a vista se fixava no teto alvo. Suas costas eram atraídas por uma curiosidade ansiosa e aquele teto branco se tornava cada vez mais infinito: até tudo tornar-se branco. Seu corpo afundava velozmente na viscosidade láctea. O contrário da corrida para fertilização: o impulso não era para frente, era um retorno às profundezas obscuras, à incógnita da origem.

Dormiu. Não sabia chorar.

Não tinha sonhos na vida concreta. Tudo eram pedras, muros e trabalho. E quando dormia, costumava voar e escolher o destino. Voar era coisa antiga. Quando criança sentia na madrugada a cama levitar.

Em algum lugar é permitido que humanos retirem os pés do chão; mas nesta Terra, onde os pés dela se demoravam, queimava-se a superfície. O calor sempre foi tamanho que o inferno foi internalizado.

Quando se casou, tudo prometia calmaria. Descobriu que outras pessoas também possuíam infernos. Para ela, a temperatura descia um pouco quando tocava e conversava com plantas e bichos ou imaginava imersão em cores chapadas. Seu marido expressava suas chamas espancando as paredes até ferir os punhos. Isso não a assustava, talvez a dor fosse forma física de distrair.

As marcas seriam memória de guerra travada, de sobrevivência.

Amava esse homem com tristeza. Era controlada por fios invisíveis, uma marionete das expectativas e das reprovações. Demorou para perceber que em boa parte dos dias tinha se tornado um móvel decorativo e que durante sete minutos em noites esporádicas, era apenas boneca inflável.

Estava se tornando uma anciã, senão em corpo, em espírito.

Foi quando enfrentou a segunda sensação de desprendimento. Perdeu o esposo para a vida. Vida mesmo. Uma mulher muito mais jovem e bonita. Narrou-me debates sobre economia do sexo, onde a circularidade de mercadorias é sempre a troca por algo mais novo, mais eficiente em despertar libido. O objeto novo deveria desconhecer os defeitos de seu dono ou fingir que não existem. “Se não se pode mudar por dentro, muda quem está fora”. Ele só queria leveza e ela afundava.

Se encolhe na cama de olhos bem fechados e a escuridão toma conta do universo. Seu corpo se torna uma pequena bolhinha de sabão, tão frágil que agradece estar num vácuo desértico. Caça luzes coloridas nessa escuridão: deve ir mais adiante? Ou mais fundo? Ou mais acima?

Sentiu um vulto mover-se. Perseguiu.

Era uma criança.

Era ela mesma com 4 anos. Essa menina lhe disse que nunca se casaria.

Esta mulher respondeu que nunca teria filhos.

Ela abraçou a criança: não querer ter filhos não significava que não a amava. A criança lhe deu um beijo: sua mágoa não a condenava à solidão eterna.

Eu ouvia com atenção e em silêncio. Em minha arte, separo as partes distintas e gosto sempre de pensar as partes em suas cores. A cor dessa mulher é como o pôr-do-sol, entre laranja rosado e amarelo que mudam de composição todos os dias. Mas sempre as mesmas cores, como o olhar âmbar de coruja. É sábia: cria suas formas de superação.

O que espera de mim? Entre histórias e imagens pedi que fechasse os olhos.


Ela me disse que era lago fundo e escuro. Molho meus pés em seu líquido e é quente na exterioridade. “Sendo este lago, parte de mim, onde está o ódio?” Ela me disse que mil metros abaixo corre água gélida. “Sendo este lago, parte de mim, onde está a dor?” Ela me disse que este frio absurdo toca em seu centro como mil facas e não consegue respirar.

Sugeri que procurasse terra firme e, num impulso, voltasse à superfície.

Ela permaneceu muito tempo em silêncio. Quando falou em desespero não conseguia subir: a terra firme era lei escorregadia. Um grande olho eternamente aberto estava lá, liso e derrapante. Seus pés o tocavam e não conseguia fincá-los para impulso ascendente. 


Tenho sensação que a conheço. Certa vez, a sacerdotisa fez exercício parecido comigo. Eu estava numa floresta densa. Ela me disse para achar a mágoa e depois destruí-la. Eu encontrei uma taça metálica que mesmo no fogo mais ardente continuava a existir. Era indestrutível. Por que não imaginei feito de papel, um grosso livro misterioso? Até hoje uso como enfeites minha mágoa derretida.


Mulheres que complicam as coisas.

Certamente será ela meu duplo em transformar.

Se não havia possibilidade de impulso na terra firme, teria que nadar. “Ouça minha voz, é uma mão a te conduzir. Aqui tem ar. Aqui tem terra fértil” Letras são húmus, palavras são caules.

Doía demais passar pelo centro. Disse-lhe: precisa reduzir esse lago, esta tarefa está muito árdua. Por que disse árdua? Ela teve um lampejo.

Abriu os olhos, sabia como sair do lago.

Começamos com fogo, mergulhamos em água, não encontramos terra para respirar ar fresco. E eu não sabia que a criatividade podia ser destrutiva.

No final da lua crescente, ela retornou. Estava diferente, parecia mais feliz mas havia muitas marcas autoprovocadas em seu corpo. Perguntei: e esses símbolos?

Disse me:


- Psicólogos e psiquiatras podem ver o ato de marcar-se a ferro quente como um problema, mas entendi que me faltava expressar o inferno interior até que ele secasse parte de meu lago. Quando deixo o ferro em brasa e desenho na pele, imagino que meu lago torna-se pouco a pouco vermelho. Adoro o vermelho. Principalmente quando é sangue. Assim levo à superfície a dor que estava num centro longínquo. Eu nado neste mar de dor. Eu a aceito. É puro êxtase. Depois desse mergulho, eu saio livre. Eu respiro fundo. Boiando neste lago posso ver as cores da floresta adiante. Às vezes me entrego ao vento e me fragmento em muitos pedacinhos como pólen. É maravilhoso. Obrigada.


Eu não tenho problemas com marcas a ferro e fogo. Acho saudável tudo que faz bem. Mas nela tudo retorna à dor.

Eu, feiticeira, propus outro exercício. “Seu lago vermelho está estável. Vá a floresta”.


E ela foi, pisou finalmente em terra firme. Estava encantada com as cores das flores. Com a altura das árvores. Com os roedores e felinos. Tudo parecia estar sob seu controle.

Despediu-se de mim. Estava segura como bruxa anciã. Confiei no progresso. Mas na lua nova veio uma péssima surpresa. Meu maior erro foi pensar que era meu duplo em transformar. Projeções nas minhas partes. Achei uma carta em meu altar. 


Dizia:

“Não há liberdade com os pés nos chão. As cores da floresta são bonitas, mas aqui só posso ir de lado a outro. Como metal encarei o fogo. Como água alternei temperaturas. Falta mergulhar em um elemento que todos dizem que deve apenas ser constantemente aprisionado nos pulmões. Contra o vento, deixar que o peso me atraia pelas costas ao centro da Terra. Depois me tornar terra, adubo para a floresta. É o que falta. A Terra deve ter também seu centro imobilizador. Talvez sejam bilhões de anos de mágoa, dor e ódio. Mas não se pode queimar toda a Terra. Me entrego à grande mãe para que ela decida. Agradeço por ouvir minhas memórias, que esses fragmentos sejam pólen para novas cores em sua floresta”.


Como quando criança, como em sonho, ela decidiu voar.

Eu permaneci de alma azul petróleo.

Para o meu colar metálico, mais um símbolo indestrutível. Um pingente com uma pedra âmbar olho de coruja. Cor de laranja rosada e amarela, é escorregadia e pesa como a alma dela.

Lianda