De repente tudo ficou frio. O que se passava no centro dos ossos talvez entendam os reumáticos crônicos. Não sabia se minha estrela se afastava ou se estava sendo triturada por dentro.
Maria Teresa fora um de meus nomes. Morei numa casa muito pobre. Existia uma escada, ao lado, que dava para um mirante quadrado: cabiam três crianças amontoadas. De lá de cima, eu e meus irmãos víamos a favela inteira e esperávamos por testemunhar seres desnaturais dessa Terra.
No meu aniversário de 11 anos, meu pai me deu de presente uma grande cesta de flores interrompidas. Onze margaridas amarelas e cerca do dobro de rosas vermelhas. Acompanhavam um bilhete: Minha flor está se desabrochando e se tornará uma linda mulher. Acabo de completar 33 anos e coleciono rosas vermelhas secas, cada uma com um amor morto.
Havia um louco na rua da universidade: sempre cumprimentava aquele homem. Certa vez, ele me perguntou se eu gostava de poesia. Estava começando a escrever as minhas próprias. Respondi e o senhor me disse:
- Amor é dor, amizade é salvação, loucura é morte.
Um sujeito de exatas, ele foi. "Que ótimo, Carlos! Escreva tuas poesias, é bom ver separado de nós nossos pensamentos"
Fui para casa e encontrei dois amigos. Conversamos sobre epistemologia e ética anarquista. Éramos algum tipo de antropólogo. O Tomé disse:
- Esse mundo está um caos. Vocês viram a reforma do trabalho? Estamos inertes! Mataram boa parte do espírito de revolta e o que restou foi transformado em individualismo consumista!
O Ariano respondeu:
- O que podemos fazer é apenas nosso trabalho com o máximo de compromisso. Eu, por exemplo, tenho fortalecido a comunidade na criação de uma empresa. Nada como a periferia possuir suas próprias ferramentas para ampliar suas vozes. Eu te convido, Tomé, a estudar comigo a virada linguística.
Trabalhadores intelectuais têm esperanças tolas. Lembrei do Trem da Alma, na década de 70, nos Estados Unidos da América. A performance de negros na dança e na música em números de audiência não chegava a competir com as mortes pelo racismo que se expressa até hoje. E então? Cabe dedicar-se em instituições que palhetam de tons claros as fileiras do trabalho qualificado? Os "outros" não estão entregues às moscas, nossa própria sorte? É preciso assumir que a apropriação da linguagem é desigual e excludente, não importa se massageamos nosso ego sendo úteis, torcendo, a longo prazo. Gritos de choro já urgem. Esqueçam a terceira via! É uma revolução estrutural que precisa ser construída.
Quem é mais delirante?
Ouvi um canto gregoriano exclusivo de mulheres. E minha mão pesou para escrever. Elas diziam:
“Minha filha, sinta
o morno das palavras
se suas vistas são tomadas
pelo vermelho do fogo,
O sol ilumina
também queima
Cuidado nesse jogo
O que deseja
pode ser pior no tempo
Num outro”
Rosa era meu codinome. Eu estava numa sala escura. Meus torturadores queriam alguma informação. Estava tão possuída de agonia e lástima que não ouvia perguntas. Graças a Deus, a dor superava as memórias e a capacidade de falar. Não me perdoaria se delatasse alguém vivo num plano, qualquer um deles. O companheiro Carlos estava na cadeira ao lado. E eu entendi como havia enlouquecido. Só podemos viver em uma situação. Na tortura, a peleja é tamanha que atravessa tempo e espaço. Desenrola aos baques o desespero, degrau por degrau, em nossas simultâneas vidas. Passado, presente e futuro se encontram num único ponto: dor profunda. Leva ao delírio, só tolerável se menor que o amor - só superado pelo carinho da amizade. Em tortura, um e outra, fortalecem a vontade de morte.
As promessas de algozes são "você fala, eu te libero". E deixei que me matassem. Nada menos explicável pelo individualismo utilitarista que o suicídio altruísta de um ateu. Não digo que não acredito em deuses. Tive provas físicas de suas capacidades. Digo que não esperava o paraíso ou nirvanas. Da cultura que nos colonizou, e que ainda mata meus ancestrais, a cristã, aceitei o inferno eterno. O fogo de alerta da cantoria gregoriana. Acham que o que nos afirma é vontade de viver? Pois, inteiramente, não. É a negação total pela necessidade dos tantos outros.
Acordei no meu julgamento. Esse planeta era lugar em que ninguém sabia que estava morto e todo mundo tinha medo de morrer. As instituições eram paredes cuja decomposição servia para distrair nossa lida que atravessa épocas infinitas. Ao me deparar com essa realidade, abandonei o Teatro do Julgamento e fui ao mirante ver o mar. Os deuses diziam que eu não podia sair da representação. Havia regras. Pesaram a gravidade sobre minha cabeça. Esfriaram o clima até que me tremesse por completo em pleno sol tropical. Estava sendo punida por não aceitar nenhuma roupagem de realidade que permite subjugação a seres vivos. Eu ainda vivo acreditando na justiça e liberdade universais - pelas quais, eu mesma, já morri.
No meu aniversário de 11 anos, meu pai me deu de presente uma grande cesta de flores interrompidas. Onze margaridas amarelas e cerca do dobro de rosas vermelhas. Acompanhavam um bilhete: Minha flor está se desabrochando e se tornará uma linda mulher. Acabo de completar 33 anos e coleciono rosas vermelhas secas, cada uma com um amor morto.
Havia um louco na rua da universidade: sempre cumprimentava aquele homem. Certa vez, ele me perguntou se eu gostava de poesia. Estava começando a escrever as minhas próprias. Respondi e o senhor me disse:
- Amor é dor, amizade é salvação, loucura é morte.
Um sujeito de exatas, ele foi. "Que ótimo, Carlos! Escreva tuas poesias, é bom ver separado de nós nossos pensamentos"
Fui para casa e encontrei dois amigos. Conversamos sobre epistemologia e ética anarquista. Éramos algum tipo de antropólogo. O Tomé disse:
- Esse mundo está um caos. Vocês viram a reforma do trabalho? Estamos inertes! Mataram boa parte do espírito de revolta e o que restou foi transformado em individualismo consumista!
O Ariano respondeu:
- O que podemos fazer é apenas nosso trabalho com o máximo de compromisso. Eu, por exemplo, tenho fortalecido a comunidade na criação de uma empresa. Nada como a periferia possuir suas próprias ferramentas para ampliar suas vozes. Eu te convido, Tomé, a estudar comigo a virada linguística.
Trabalhadores intelectuais têm esperanças tolas. Lembrei do Trem da Alma, na década de 70, nos Estados Unidos da América. A performance de negros na dança e na música em números de audiência não chegava a competir com as mortes pelo racismo que se expressa até hoje. E então? Cabe dedicar-se em instituições que palhetam de tons claros as fileiras do trabalho qualificado? Os "outros" não estão entregues às moscas, nossa própria sorte? É preciso assumir que a apropriação da linguagem é desigual e excludente, não importa se massageamos nosso ego sendo úteis, torcendo, a longo prazo. Gritos de choro já urgem. Esqueçam a terceira via! É uma revolução estrutural que precisa ser construída.
Quem é mais delirante?
Ouvi um canto gregoriano exclusivo de mulheres. E minha mão pesou para escrever. Elas diziam:
“Minha filha, sinta
o morno das palavras
se suas vistas são tomadas
pelo vermelho do fogo,
O sol ilumina
também queima
Cuidado nesse jogo
O que deseja
pode ser pior no tempo
Num outro”
Rosa era meu codinome. Eu estava numa sala escura. Meus torturadores queriam alguma informação. Estava tão possuída de agonia e lástima que não ouvia perguntas. Graças a Deus, a dor superava as memórias e a capacidade de falar. Não me perdoaria se delatasse alguém vivo num plano, qualquer um deles. O companheiro Carlos estava na cadeira ao lado. E eu entendi como havia enlouquecido. Só podemos viver em uma situação. Na tortura, a peleja é tamanha que atravessa tempo e espaço. Desenrola aos baques o desespero, degrau por degrau, em nossas simultâneas vidas. Passado, presente e futuro se encontram num único ponto: dor profunda. Leva ao delírio, só tolerável se menor que o amor - só superado pelo carinho da amizade. Em tortura, um e outra, fortalecem a vontade de morte.
As promessas de algozes são "você fala, eu te libero". E deixei que me matassem. Nada menos explicável pelo individualismo utilitarista que o suicídio altruísta de um ateu. Não digo que não acredito em deuses. Tive provas físicas de suas capacidades. Digo que não esperava o paraíso ou nirvanas. Da cultura que nos colonizou, e que ainda mata meus ancestrais, a cristã, aceitei o inferno eterno. O fogo de alerta da cantoria gregoriana. Acham que o que nos afirma é vontade de viver? Pois, inteiramente, não. É a negação total pela necessidade dos tantos outros.
Acordei no meu julgamento. Esse planeta era lugar em que ninguém sabia que estava morto e todo mundo tinha medo de morrer. As instituições eram paredes cuja decomposição servia para distrair nossa lida que atravessa épocas infinitas. Ao me deparar com essa realidade, abandonei o Teatro do Julgamento e fui ao mirante ver o mar. Os deuses diziam que eu não podia sair da representação. Havia regras. Pesaram a gravidade sobre minha cabeça. Esfriaram o clima até que me tremesse por completo em pleno sol tropical. Estava sendo punida por não aceitar nenhuma roupagem de realidade que permite subjugação a seres vivos. Eu ainda vivo acreditando na justiça e liberdade universais - pelas quais, eu mesma, já morri.