A lida de tempos atrozes

De repente tudo ficou frio. O que se passava no centro dos ossos talvez entendam os reumáticos crônicos. Não sabia se minha estrela se afastava ou se estava sendo triturada por dentro.

Maria Teresa fora um de meus nomes. Morei numa casa muito pobre. Existia uma escada, ao lado, que dava para um mirante quadrado: cabiam três crianças amontoadas. De lá de cima, eu e meus irmãos víamos a favela inteira e esperávamos por testemunhar seres desnaturais dessa Terra.


No meu aniversário de 11 anos, meu pai me deu de presente uma grande cesta de flores interrompidas. Onze margaridas amarelas e cerca do dobro de rosas vermelhas. Acompanhavam um bilhete: Minha flor está se desabrochando e se tornará uma linda mulher. Acabo de completar 33 anos e coleciono rosas vermelhas secas, cada uma com um amor morto.


Havia um louco na rua da universidade: sempre cumprimentava aquele homem. Certa vez, ele me perguntou se eu gostava de poesia. Estava começando a escrever as minhas próprias. Respondi e o senhor me disse:

- Amor é dor, amizade é salvação, loucura é morte.

Um sujeito de exatas, ele foi. "Que ótimo, Carlos! Escreva tuas poesias, é bom ver separado de nós nossos pensamentos"

Fui para casa e encontrei dois amigos. Conversamos sobre epistemologia e ética anarquista. Éramos algum tipo de antropólogo. O Tomé disse:

- Esse mundo está um caos. Vocês viram a reforma do trabalho? Estamos inertes! Mataram boa parte do espírito de revolta e o que restou foi transformado em individualismo consumista!

O Ariano respondeu:

- O que podemos fazer é apenas nosso trabalho com o máximo de compromisso. Eu, por exemplo, tenho fortalecido a comunidade na criação de uma empresa. Nada como a periferia possuir suas próprias ferramentas para ampliar suas vozes. Eu te convido, Tomé, a estudar comigo a virada linguística.


Trabalhadores intelectuais têm esperanças tolas. Lembrei do Trem da Alma, na década de 70, nos Estados Unidos da América. A performance de negros na dança e na música em números de audiência não chegava a competir com as mortes pelo racismo que se expressa até hoje. E então? Cabe dedicar-se em instituições que palhetam de tons claros as fileiras do trabalho qualificado? Os "outros" não estão entregues às moscas, nossa própria sorte? É preciso assumir que a apropriação da linguagem é desigual e excludente, não importa se massageamos nosso ego sendo úteis, torcendo, a longo prazo. Gritos de choro já urgem. Esqueçam a terceira via! É uma revolução estrutural que precisa ser construída.

Quem é mais delirante?

Ouvi um canto gregoriano exclusivo de mulheres. E minha mão pesou para escrever. Elas diziam:

“Minha filha, sinta
o morno das palavras
se suas vistas são tomadas
pelo vermelho do fogo,
O sol ilumina
também queima
Cuidado nesse jogo
O que deseja
pode ser pior no tempo
Num outro”

Rosa era meu codinome. Eu estava numa sala escura. Meus torturadores queriam alguma informação. Estava tão possuída de agonia e lástima que não ouvia perguntas. Graças a Deus, a dor superava as memórias e a capacidade de falar. Não me perdoaria se delatasse alguém vivo num plano, qualquer um deles. O companheiro Carlos estava na cadeira ao lado. E eu entendi como havia enlouquecido. Só podemos viver em uma situação. Na tortura, a peleja é tamanha que atravessa tempo e espaço. Desenrola aos baques o desespero, degrau por degrau, em nossas simultâneas vidas. Passado, presente e futuro se encontram num único ponto: dor profunda. Leva ao delírio, só tolerável se menor que o amor - só superado pelo carinho da amizade. Em tortura, um e outra, fortalecem a vontade de morte.

As promessas de algozes são "você fala, eu te libero". E deixei que me matassem. Nada menos explicável pelo individualismo utilitarista que o suicídio altruísta de um ateu. Não digo que não acredito em deuses. Tive provas físicas de suas capacidades. Digo que não esperava o paraíso ou nirvanas. Da cultura que nos colonizou, e que ainda mata meus ancestrais, a cristã, aceitei o inferno eterno. O fogo de alerta da cantoria gregoriana. Acham que o que nos afirma é vontade de viver? Pois, inteiramente, não. É a negação total pela necessidade dos tantos outros.

Acordei no meu julgamento. Esse planeta era lugar em que ninguém sabia que estava morto e todo mundo tinha medo de morrer. As instituições eram paredes cuja decomposição servia para distrair nossa lida que atravessa épocas infinitas. Ao me deparar com essa realidade, abandonei o Teatro do Julgamento e fui ao mirante ver o mar. Os deuses diziam que eu não podia sair da representação. Havia regras. Pesaram a gravidade sobre minha cabeça. Esfriaram o clima até que me tremesse por completo em pleno sol tropical. Estava sendo punida por não aceitar nenhuma roupagem de realidade que permite subjugação a seres vivos. Eu ainda vivo acreditando na justiça e liberdade universais - pelas quais, eu mesma, já morri.

A morte é certa, a hora incerta

As palavras estavam em convulsão como natureza que espuma na boca. Dentre sapos e borboletas preferia vomitar os que escorregavam pela garganta. As asas secas, as patas e antenas dos insetos faziam cócegas dolorosas na passagem; como se mudança fosse isto de se debater em busca de um orifício. Chamam de fim do túnel. 

Répteis e insetos, na boca, se reversavam. Eu estava atacado há tempos do estômago, não era capaz de digerir nada por melhor que parecesse o alimento. Quando era tomado pelo paladar doce era um, quando amargava minhas propriedades era o outro. Qual era qual? Depende sempre de quem vê e como se vê sapos e borboletas. Essa é uma pergunta.  

Os meninos descalços na rua insistiam em sufocar os sapos com sal ou explodi-los de uma vez com suas bombinhas. As meninas buscavam as borboletas sem sucesso porque beleza e liberdade estão sempre fugindo dos dedos.

Castigo são estes: alguns animais não conseguem ficar passivos diante de bichos menores, mulheres se doem sangrando para renovar e parir, enquanto homens, como eu, ficam engasgados com palavras - é possível que digam algo sozinhas? As frases se adéquam ao nosso universo e, para ser sincero, o meu as condiciona num plástico fechado à vácuo. Como esses que vendem frango ou porco dentro. Mas está tudo vivo e esmurra as paredes. Empurram e querem romper bichos. Não tenho cacife para inventar palavras.

A coruja da minha cabeça parece mais uma fênix que não é capaz de ultrapassar pequena idade. De tanto sabe-se imortal que mata-se antes da maturidade. Aparenta enrugada, cercada de fogo latente. Desprezível como tudo que é novo e velho. Pia como ave noturna de rapina anunciando desastres. Feia e mórbida como a incapacidade de rejuvenescer. Isso me faz mal ao coração. 

Quem mais consome as coisas é o peito. Vive um lobo estranho, solitário. Seu corpo tornou-se de elefante peludo, mas a cabeça e rabo é de lobo. Não sei como é capaz de correr tanto sendo tonelar. Pesa e incomoda porém, é um bicho-máquina. Estimula cavalos, os que mais correm! Trabalho, movimento, observação, excreção, morte. Tudo depende de cavalos de corrida. Aposta em qual?

As aranhas são as favoritas. Se são parte minha ou vontade externa, não vou me denunciar. Destreza, sabedoria e ordem matemática definem esse aspecto que nos encanta. Aquelas teias que nos envolvem como útero são tão aconchegantes que nem sou capaz de lembrar que serei devorado um dia. 

Pios bizonhos e uivos rompem a madrugada: eu fico insone.

Embrulhado em teia tento descansar, mas os répteis e insetos se inquietam. Meus dedos minam os bichos numa batalha escrita: é vão, meu corpo é circundado por líquidos amarelo e esverdeado.


Estou pronto para ser degradado pelos vermes que permiti em vida, contudo, meu sorriso raro não são capazes, ainda, de apagar.

   



    

Sobre O Amor

O romantismo é estúpido e sou uma romântica irremediável. Sempre vou à subjetividade das coisas e ao desejo da alma. Sinto que compreendo melhor “O Amor” depois do delírio. Quando as teorias eram sentidas no corpo e a experiência, imagens distantes com significados vinculados pelos olhos - não pela lógica própria das coisas. 
Se amor é onde dói, foi assim que caí num abismo. 

Cada sorriso, prato de comida, pessoas e pedras bonitas no caminho foram presentes para mim. Sentir-me com sorte por sempre pensar felicidade daquilo que recebi, e continuo recebendo, é a marca do meu romantismo porque o mundo não é Bom assim. Mas eu o amo. 
 
Em meu delírio, todas as doações precisavam ser retribuídas, não só as que eu recebi mas também as dos meus amados. Com tanta gente no mundo, minha retribuição, voluntária e obrigatória, teria de ser com sofrimento e morte. A mais singela gentileza que praticavam comigo era, por antecedência, uma retribuição ao meu sacrifício futuro ao Todo Poderoso. Era uma aposta coletiva. Toda dádiva dos seres no mundo tornava meu corpo digno do sacrifício, eram os próprios valores dos outros transferidos para mim. Fortalecer o dom para sacrifício. Assim se reconstruía a esperança no Bem Comum.
 
Eu estava feliz porque amo e porque todo sacrifício precede uma dádiva. O Todo Poderoso não era obrigado a retribuir com a moralidade perfeita diante da pressão do sacrifício. A importância não era apenas a soma de valores particulares de cada um dos seres vivos e não vivos.

Por pressão somatória qualquer destino poderia proceder. 

A vontade coletiva do Bem e a felicidade geral seria possível como destino quando confluía com o desejo do Todo Poderoso.
O universo perfeito. 

A razão do sacrifício era apenas justificar que esse milagre não poderia ser operado de cima para baixo; ao mesmo tempo, como eu seria queimada viva, bruxa, louca e anarquista, num palco apreciável mundialmente, o sacrifício oferecia uma imagem negativa: o contraponto do Bem Universal. 

Essa dor e essa loucura é o tamanho do meu amor. Se é para o Bem de Todos, o sofrimento mais infernal é o mesmo que felicidade e satisfação. 

Se vivo o amor nesses termos, não sei amar aqueles que chegam perto do meu âmago, aqueles que me amam. 

Não posso lidar com o fato de ser amada porque não posso tolerar esse dom. O que mais doaria além da extrema agonia que precede o fim da vida?

A agonia do corpo receberia uma contraparte na alma. Essa ainda não sei se seria capaz de abdicar. 
Poderia abdicar do meu futuro eterno, meu paraíso mental, o lugar que eu escolheria contracenar com a representação das pessoas que amo após minha morte? 

Ser amada me obriga a enterrar minha própria moralidade perfeita e felicidade completa? A minha individualidade que transcende?

Seria eu capaz de suprimir meu refúgio e projeção, minha imaginação, pela felicidade no Bem Universal concreto? Aceitaria ficar trancada na tortura suprema e infinita do inferno para que na Terra reinasse, em verdade, a perfeição?

É por isso que o amor me traz medo, dói e enlouquece. 

O medo me levou aos erros e guerras. Não quero mais presentes.

A quem amei, perdoem-me odiando-me. 

Âmbar ao vento

"As pessoas gostam de histórias bonitas, finais felizes. Quero que sintam a dor e o ódio que moram dentro de mim”.

A vida desta moça foi muito instável: mudanças, injustiças, violências. O mundo inteiro era um caldeirão e o metal, a matéria-prima do utensílio, era sua própria pele.

Eu ouvia atentamente as imagens que criava de seus sentimentos.

A primeira sensação de desprendimento foi quando perdeu o pai para a morte. Jovem, despencou na cama de olhos bem abertos. A sensação de cair permaneceu por longo tempo enquanto a vista se fixava no teto alvo. Suas costas eram atraídas por uma curiosidade ansiosa e aquele teto branco se tornava cada vez mais infinito: até tudo tornar-se branco. Seu corpo afundava velozmente na viscosidade láctea. O contrário da corrida para fertilização: o impulso não era para frente, era um retorno às profundezas obscuras, à incógnita da origem.

Dormiu. Não sabia chorar.

Não tinha sonhos na vida concreta. Tudo eram pedras, muros e trabalho. E quando dormia, costumava voar e escolher o destino. Voar era coisa antiga. Quando criança sentia na madrugada a cama levitar.

Em algum lugar é permitido que humanos retirem os pés do chão; mas nesta Terra, onde os pés dela se demoravam, queimava-se a superfície. O calor sempre foi tamanho que o inferno foi internalizado.

Quando se casou, tudo prometia calmaria. Descobriu que outras pessoas também possuíam infernos. Para ela, a temperatura descia um pouco quando tocava e conversava com plantas e bichos ou imaginava imersão em cores chapadas. Seu marido expressava suas chamas espancando as paredes até ferir os punhos. Isso não a assustava, talvez a dor fosse forma física de distrair.

As marcas seriam memória de guerra travada, de sobrevivência.

Amava esse homem com tristeza. Era controlada por fios invisíveis, uma marionete das expectativas e das reprovações. Demorou para perceber que em boa parte dos dias tinha se tornado um móvel decorativo e que durante sete minutos em noites esporádicas, era apenas boneca inflável.

Estava se tornando uma anciã, senão em corpo, em espírito.

Foi quando enfrentou a segunda sensação de desprendimento. Perdeu o esposo para a vida. Vida mesmo. Uma mulher muito mais jovem e bonita. Narrou-me debates sobre economia do sexo, onde a circularidade de mercadorias é sempre a troca por algo mais novo, mais eficiente em despertar libido. O objeto novo deveria desconhecer os defeitos de seu dono ou fingir que não existem. “Se não se pode mudar por dentro, muda quem está fora”. Ele só queria leveza e ela afundava.

Se encolhe na cama de olhos bem fechados e a escuridão toma conta do universo. Seu corpo se torna uma pequena bolhinha de sabão, tão frágil que agradece estar num vácuo desértico. Caça luzes coloridas nessa escuridão: deve ir mais adiante? Ou mais fundo? Ou mais acima?

Sentiu um vulto mover-se. Perseguiu.

Era uma criança.

Era ela mesma com 4 anos. Essa menina lhe disse que nunca se casaria.

Esta mulher respondeu que nunca teria filhos.

Ela abraçou a criança: não querer ter filhos não significava que não a amava. A criança lhe deu um beijo: sua mágoa não a condenava à solidão eterna.

Eu ouvia com atenção e em silêncio. Em minha arte, separo as partes distintas e gosto sempre de pensar as partes em suas cores. A cor dessa mulher é como o pôr-do-sol, entre laranja rosado e amarelo que mudam de composição todos os dias. Mas sempre as mesmas cores, como o olhar âmbar de coruja. É sábia: cria suas formas de superação.

O que espera de mim? Entre histórias e imagens pedi que fechasse os olhos.


Ela me disse que era lago fundo e escuro. Molho meus pés em seu líquido e é quente na exterioridade. “Sendo este lago, parte de mim, onde está o ódio?” Ela me disse que mil metros abaixo corre água gélida. “Sendo este lago, parte de mim, onde está a dor?” Ela me disse que este frio absurdo toca em seu centro como mil facas e não consegue respirar.

Sugeri que procurasse terra firme e, num impulso, voltasse à superfície.

Ela permaneceu muito tempo em silêncio. Quando falou em desespero não conseguia subir: a terra firme era lei escorregadia. Um grande olho eternamente aberto estava lá, liso e derrapante. Seus pés o tocavam e não conseguia fincá-los para impulso ascendente. 


Tenho sensação que a conheço. Certa vez, a sacerdotisa fez exercício parecido comigo. Eu estava numa floresta densa. Ela me disse para achar a mágoa e depois destruí-la. Eu encontrei uma taça metálica que mesmo no fogo mais ardente continuava a existir. Era indestrutível. Por que não imaginei feito de papel, um grosso livro misterioso? Até hoje uso como enfeites minha mágoa derretida.


Mulheres que complicam as coisas.

Certamente será ela meu duplo em transformar.

Se não havia possibilidade de impulso na terra firme, teria que nadar. “Ouça minha voz, é uma mão a te conduzir. Aqui tem ar. Aqui tem terra fértil” Letras são húmus, palavras são caules.

Doía demais passar pelo centro. Disse-lhe: precisa reduzir esse lago, esta tarefa está muito árdua. Por que disse árdua? Ela teve um lampejo.

Abriu os olhos, sabia como sair do lago.

Começamos com fogo, mergulhamos em água, não encontramos terra para respirar ar fresco. E eu não sabia que a criatividade podia ser destrutiva.

No final da lua crescente, ela retornou. Estava diferente, parecia mais feliz mas havia muitas marcas autoprovocadas em seu corpo. Perguntei: e esses símbolos?

Disse me:


- Psicólogos e psiquiatras podem ver o ato de marcar-se a ferro quente como um problema, mas entendi que me faltava expressar o inferno interior até que ele secasse parte de meu lago. Quando deixo o ferro em brasa e desenho na pele, imagino que meu lago torna-se pouco a pouco vermelho. Adoro o vermelho. Principalmente quando é sangue. Assim levo à superfície a dor que estava num centro longínquo. Eu nado neste mar de dor. Eu a aceito. É puro êxtase. Depois desse mergulho, eu saio livre. Eu respiro fundo. Boiando neste lago posso ver as cores da floresta adiante. Às vezes me entrego ao vento e me fragmento em muitos pedacinhos como pólen. É maravilhoso. Obrigada.


Eu não tenho problemas com marcas a ferro e fogo. Acho saudável tudo que faz bem. Mas nela tudo retorna à dor.

Eu, feiticeira, propus outro exercício. “Seu lago vermelho está estável. Vá a floresta”.


E ela foi, pisou finalmente em terra firme. Estava encantada com as cores das flores. Com a altura das árvores. Com os roedores e felinos. Tudo parecia estar sob seu controle.

Despediu-se de mim. Estava segura como bruxa anciã. Confiei no progresso. Mas na lua nova veio uma péssima surpresa. Meu maior erro foi pensar que era meu duplo em transformar. Projeções nas minhas partes. Achei uma carta em meu altar. 


Dizia:

“Não há liberdade com os pés nos chão. As cores da floresta são bonitas, mas aqui só posso ir de lado a outro. Como metal encarei o fogo. Como água alternei temperaturas. Falta mergulhar em um elemento que todos dizem que deve apenas ser constantemente aprisionado nos pulmões. Contra o vento, deixar que o peso me atraia pelas costas ao centro da Terra. Depois me tornar terra, adubo para a floresta. É o que falta. A Terra deve ter também seu centro imobilizador. Talvez sejam bilhões de anos de mágoa, dor e ódio. Mas não se pode queimar toda a Terra. Me entrego à grande mãe para que ela decida. Agradeço por ouvir minhas memórias, que esses fragmentos sejam pólen para novas cores em sua floresta”.


Como quando criança, como em sonho, ela decidiu voar.

Eu permaneci de alma azul petróleo.

Para o meu colar metálico, mais um símbolo indestrutível. Um pingente com uma pedra âmbar olho de coruja. Cor de laranja rosada e amarela, é escorregadia e pesa como a alma dela.

Tudo muda e nada muda

A relação entre o Gira-mundo e o Guarda-Chuva de Babel


Os inventores são a classe de maior valor. Tudo começou com o controle das faíscas, depois veio a roda e ladeira abaixo sem freio. Inventaram o Gira-mundo: o tédio com a parafernália de utilidades movimentou economias públicas e privadas para construir essa grande obra em torno do globo terrestre.

Hastes bem fincadas com molas contra abalos sísmicos e altura titânica. Passaria pelo oceano uma fibra tensa de metal criado por nanotecnologia - não podia ser corroído pela salinidade. Essa fibra seria o trilho de uma cesta gigante com oferendas de cada território para os seguintes. Ninguém sabe com certeza como ela se esvazia mas, como termina na China, dizem que trabalhadores cavaram um buraco que vai até o núcleo da Terra e lá as prendas se tornam o alimento do equilíbrio no mundo.

O universalismo ético se fortaleceu com essa obra da Criação e, como duplo do universalismo, a pluralidade explodiu a ponto de se necessitar um novo sistema que organizasse os territórios dentro e fora dos países. Devo salientar que, apesar de falar em “sistema”, é uma obviedade que nego a tese dos biólogos e antropologistas que consideram o Guarda-chuva de Babel um organismo. Guarda-chuva não é tartaruga.

A questão é simples: pelos sentidos podemos saber sobre bom ou mau. É  substantivo em si qualificado ou adjetivo com substância. Um bom trabalhador é alguém que faz bem seu trabalho. Sua atividade tem substância, qualidade reconhecida. O problema surge no bem adjetivo: não poderia ser substancializado na ética universalista. 

Esse bem representado seria desrespeitoso à pluralidade cultural. 
A estética se tornou a chave.

Vê lá em cima a base.
...
Esse cabo de Guarda-chuva está por uma linha pendurado.

A haste gigantesca é por onde 
desce 
sobe 
a cesta para oferendas.

Não há espaço e não há tempo para traduzi-la. 

Essa torre central varia de país para país, a dos Estados Unidos da América, por exemplo, é um pênis desmedido - previsível pois sempre foram aficionados em produzir cinema de heróis. Já a da China é uma espiral preta e branca, só sabemos que é o movimento do Yin Yang por causa da curvatura do cabo - o que revela o símbolo em sua ponta. 

No Brasil, a torre é uma estátua monstruosa da Nossa Senhora da Conceição Aparecida: durante o dia é Santa e sob luz negra, à noite, é puta. O esqueleto da cidade é dividido em dezesseis partes onde cada uma dessas é dividida em sete partes no eixo horizontal e em duas partes no eixo vertical. 
O primeiro setor horizontal é dos cachaceiros e fumantes, o segundo dos médicos e curandeiros, o terceiro policiais e guerreiros, o quarto é dos de sexualidade livre, o quinto de ambientalistas, o sexto das matriarcas, o sétimo dos advogados e juízes, o oitavo das feministas e professores, o nono dos caçadores, o décimo dos impossíveis, o décimo primeiro de alquimistas, o décimo segundo de homens de paz, o décimo terceiro de narcisistas, o décimo quarto de idosos, e décimo quinto, crianças. O último é mistério. Os andares são para separar classes: os mais criativos, coincidentemente, são da elite e ficam acima. Os mais pobres ficam embaixo. Na classe de baixo, alguns eixos sofrem superpopulação. Os homens de paz sempre defendem que é preciso criar criativos em criadouros para que subam aos poucos à classe de cima. Existem outras questões como abstêmios numa das sete partes do setor cachaceiro e homens fascistoides no das matriarcas, ainda tem gente quer ter moradia em dois setores diferentes. As escolas tentam resolver o problema, mas é Babel. 

De 
que 
vale 
v  e 
a    l 
v  l 
l    a   e 
e  v   a  l 
v    l 
v       a 
a   e 
       e 
um        invertido? 
guarda   chuva 
       - 

É para segurar a chuva no lago central em volta da Torre. Evidente. 

até
núcleo
do 
equilíbrio
onde 
queima
a
Terra




A Descoberta

Ainda estou aqui. Não me vi e aceitei que mesmo onde não há coisa, há o nada que polariza. E, encarcerada em não-ser, passei a vida inventando coisas.

Até o vácuo representa algo, mas não O saberemos.

Será esse o vazio supremo buscado por monges, ascetas e desesperados por conforto? Se assim o for, o estado de ausência é a paixão que compartilhamos. 

Nunca tocamos nada, nos repelimos continuamente. Não significa que a troca não exista: partes de nós migram numa velocidade tão esplêndida que sequer podemos perceber.

Existe uma chama dentro do nosso peito que, como qualquer outra, não gostaríamos de tocar. A alma é definida pela temperatura da chama e pela polarização das cargas no plasma. Natureza bela, é como o movimento de vários furacões onde o olho está no centro de nosso fogo. Esse impalpável é o fundamento da vida e se fortalece quando enfrentamos o espaço entre as coisas ou quando somos mentalizados por outras pessoas. Por isso tanta gente disputa por atenção. 

Somos em espírito um fluxo de ondas que nascem conosco e que vive uma aparição temporária de estrelas distantes - as frequências permitem a forma e cor, duvido que o conteúdo.

Foi A Descoberta científica de 2049.

Nossas labaredas no coração seriam o ponto equidistante entre nossas estrelas particulares e a profundidade que ninguém sabe onde se esconde. Cientistas, os tipos que não se detém diante do mistério, insistem em querer retornar às suas próprias fontes luminosas. É que esse reencontro permitiria a vida eterna. Aqui na Terra, onde não se toca em fogo, a descoberta teve péssimos desdobramentos.

As pesquisas concluíram que pessoas obsessivas e crianças são fontes mais intensas de energia. Obsessivas seriam canais que iluminam e preenchem de vida seus objetos de desejo. Quanto às crianças, todas nascem com a mesma capacidade de energia mas, ao contrário dos mais velhos, pequeninos estão sempre nos pensamentos de alguém. Se fortalecem através do carinho da memória e distribuem pouco, pois pensam apenas naqueles mais próximos.

Fato é que pessoas idosas são as melhores na distribuição da energia: conhecem muitos e a mente recapitula o passado de forma sistemática. Adultos ativos direcionam seus pensamentos apenas a uma rede mais imediata. É de onde parte tamanha vivacidade. Não são os condenados do Esquecimento. Os sintomas dos esquecidos são sempre os mesmos: fraqueza, adoecimentos e, depois, a morte certa.

Eu passei a vida com receio de esquecer alguém. Nunca quis me sentir culpada pelo apagar da luz de seja quem for. Ainda sou uma criança, viva, mas colecionadora de histórias.

Depois que descobriram as labaredas do peito, pouco a pouco afinaram sistemas:

Foram criados os bancos de memórias com filmes das pessoas ricas que estavam à beira da morte e que ofereciam pagamentos aos mais pobres para que ficassem horas vendo suas representações. Haviam centros de caridade que se punham às portas dos bancos de memórias tirando fotografias dos mendigos solitários e dependentes de prestar o “serviço do pensamento”. Muitas famílias fecharam-se em si mesmas. A polícia ganhou uma facção específica responsável pela investigação de sequestros de bebês. Essas “grandes fontes” num mundo de recursos escassos.


E eu…

Eu pensava em muita gente. Sentava numa praça, numa praia, numa ponte e ficava cerca de 8 horas por dia imaginando e escrevendo histórias sobre os rostos que via. Trabalhava como garçonete num bar durante 6 horas e memorizei muitos rostos assim. 8 horas de sono e sonho.


Pesadelo recorrente: uma multidão de rostos se punham como mar em minha frente e se empurravam competindo para entrar no foco principal.


Bom, devia haver pessoas como eu nas ruas porque faz longos anos que sou só eu: não conheço muita gente que teria pensado em mim por nutrir um laço mais profundo. Pensar em desconhecidos...lembro que no início d’A Descoberta alguns falavam “pense em mim hoje por favor”. Agora todos dizem “pense pela minha vida, eu imploro”. 

O sol que previam se apagar era a energia geral no peito dos humanos. Estamos em extinção. Acredito que quando a memória era mais de amor puro que compulsão piedosa, ou remunerada, a qualidade da energia era melhor, mais forte.


O tempo está frio e o ar denso.


É que a temperatura baixa faz isso: reduz o espaço entre as partículas. Estamos mais rígidos, como se, ao reduzir o vácuo entre nós forçosamente, não tivéssemos mais liberdade para mover. Amor puro precisa de liberdade.

Ao invés de escrever ao ar livre, passei a trancar-me em casa. O bar já era suficiente para aumentar os componentes do meu sistema de histórias. Estava estafada.

Nada de me esgotar, parecia um veículo de carne e ossos.
Veículo de energia.

O meu crime é o único que merece a pena de morte como sentença.

O estalo seco partiu das têmporas e depois tudo caiu no chão respingando desenhos na parede. E o que há é o mesmo de sempre, o espaço entre as coisas. Eu não quis guardar qualquer elemento em mim e assim me torno a substância do mundo. Pura energia. É só um retorno às origens: ao invés de inverter a escala temporal dos processos, humanamente impossível, adiantei abruptamente o futuro inescapável.

Castelo do caos

Não sei se castelo representa imponência ou estabilidade, mas esta imagem me remete à ruína. Por dentro destes muros grossos e acinzentados há uma floresta onde correm cavalos selvagens nas mais diversas direções. Dos muros escorria passiflora para que os desgovernados se acalmassem, mas esses passavam por cima das poças mesmo mancos, mesmo cegos, mesmo raquíticos. Muitos até se batiam contra as fronteiras. Os cavalos selvagens tinham sua regularidade: jamais se chocavam. Era um caos ordenado.

Não têm necessidade de nada além da dança frenética. 

Há algum tempo, um vermelho e desengonçado ensaiava levantar-se no campo central. Era quem se embebedava da passiflora. 

Afinal, correr para quê? 

Quando os muros forem destruídos ainda haverá o mundo lá fora.

Tenho carinho especial pelo escarlate, enquanto todos os outros estavam em suas próprias rotas indefinidas, ele levantava-se, desistia e deitava-se novamente. Passava horas repetindo esse procedimento. Pulsante. Compassado.

A partir de certo dia, a flor do maracujá faltou; o alimento desse coração se extinguiu e ele precisou buscar poças em outros lugares. Bem devagar ia à procura por baixo das pedras, atrás dos montes... tentava perguntar aos apressados se tinham visto alguma gota. Nada.

De que serve essas muralhas se não me dão alimento? Perguntava-se.

Mas caminhava mesmo sem ter destino.

O corpo estranho de cor viva passeava pela floresta sucedendo acidentes. Quando os selvagens tentavam desviar do errante, iam de encontro às árvores, às rochas ou escorregavam na lama. 

Caos.

Com o escarlate vagando parece que não há mais nada que mantenha pedras sobre pedras como barreiras. Se não há mais referência no centro, tudo é potencialmente expansivo. 

O suprimento de passiflora não voltou mais. 

O cavalo vermelho permanece móvel de poça em poça.

Não posso controlar sua posição e sei que se não há animal situado, a floresta, como coisa diferente, é feita de desastres. Atividade constante que reduz a espera para ser adubo além muro.

Espero que os acidentes não atinjam o escarlate em cheio - se ele morrer, todo o movimento acaba. 

Eu gosto de ver a dança caótica dos selvagens, principalmente quando se batem contra as margens. Estas paredes preferem ser alvo de colisões a apenas contemplar no horizonte os outros castelos. Essas futuras ruínas.

Lianda